Família: A Nossa Escola

A família é uma escola de evolução. Não é um acaso, não é apenas um agrupamento social, é um ambiente cuidadosamente estruturado para o nosso aprendizado espiritual.

Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, a trabalhadora da casa Julia Fertig refletiu sobre o tema “Família”, inspirada em uma exposição de Jorge Elarrat sobre o mesmo assunto.

A família é uma escola de evolução. Não é um acaso, não é apenas um agrupamento social, é um ambiente cuidadosamente estruturado para o nosso aprendizado espiritual.

A alma mais pura que esteve entre nós teve família. Jesus, modelo e guia da humanidade, viveu essa experiência, ao lado de Maria de Nazaré, José e outros familiares. Esse foi mais um exemplo dado por Ele, exemplo de que precisamos uns dos outros.

Quando buscamos crescer, seja em uma posição de trabalho ou em qualquer área da vida, precisamos aprender antes. A lição sempre antecede a conquista. E, se quisermos crescer espiritualmente, também precisamos aprender. E o lugar que mais nos possibilita esse aprendizado é, sem dúvida, a família.

Nos lembra Emmanuel, é no lar que “[…] recebes o teu primeiro mandato de serviço cristão.” — Emmanuel, livro Família.

O que é família?

Família tem diversos significados no dicionário, mas algo que aparece em todas as definições é a existência de algo comum entre os elementos que a constituem.

Os espíritos amigos, no Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo 4, nos falam que “No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias unidos pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Felizes por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos outros.”

Ou seja, não estamos juntos por acaso. Há uma história, há uma ligação, há um propósito.

Tipos de laços familiares

Jorge Elarrat nos apresenta uma forma didática de compreender esses vínculos, classificando-os pela natureza das provas.

1. Laços do presente

São familiares que surgiram nesta existência. Vínculos recentes, construídos agora, como oportunidades novas de aprendizado.

2. Laços do passado

Aqui entram relações que já vêm de outras existências, e que assumem diferentes formas:

Afetos: Espíritos que se amam profundamente e desejam continuar caminhando juntos

  • Afetos frágeis: aqueles que precisam da nossa ajuda, dão trabalho, exigem esforço. Muitas vezes fomos nós que, no passado, contribuímos para seus erros, e agora somos convidados a ajudar no reequilíbrio. E, às vezes, fazemos isso simplesmente por amar muito aquele coração.
  • Grandes parceiros: relações de apoio mútuo, onde podemos contar um com o outro. É o tipo de relação que todos nós buscamos. A outra pessoa não é perfeita, há defeitos, mas a gente não se importa porque amamos muito. Mas esse vínculo não foi construído em pouco tempo, muito pelo contrário, foi construído ao longo de muito tempo, com muito esforço, dedicação, paciência e com Jesus no coração. Muitas vezes, esses grandes parceiros de hoje, em encarnações passadas já foram desafetos, mas souberam superar e ressignificar o que sentiam.
  • Os que fazem por nós: pessoas por quem não conseguimos fazer muito, mas que vêm para cuidar de nós.

E além desses laços de afeto, também encontramos aqueles que mais nos desafiam…

Os desafetos: nossas maiores provas de amor

Os desafetos são as maiores provas da nossa capacidade de amar.

Eles se manifestam através de:

  • Diferenças de opinião
  • Divergências de comportamento
  • Dificuldades de convivência

São Espíritos que, em existências passadas, tiveram conflitos, dificuldades ou compromissos morais conosco. Normalmente, nutrimos por esses corações sentimentos de Mágoa e Ódio.

A Mágoa

A gente só tem mágoa de quem ama. A mágoa surge porque criamos expectativas, criamos uma imagem de como gostaríamos que o outro fosse, mas essa imagem nem sempre corresponde à realidade.

Além disso, muitas vezes transferimos responsabilidades:

  • “Minha mãe é egoísta”
  • “Meu pai não me dá afeto”
  • “Meu parceiro não é como eu gostaria”

Mas a pergunta que precisamos nos fazer é: “Tá, e daí?”

O que essa pessoa convida a mudar em mim mesmo?

“Honrarás teu pai e tua mãe…” proclama a Escritura (Ex 20:12). Não significa ser submisso, nem necessariamente manter uma convivência que não é possível. Muitas vezes, significa honrar com atitudes no bem, mesmo que eles não façam o mesmo.

O Ódio

Quando odiamos, nos afastamos da lei de Deus, que é o amor. E, ao nos afastarmos do amor, nos tornamos infelizes.

Como vencer os desafetos?

Diante disso, surge o caminho de transformação.

1. O perdão

O perdão é fundamental para a libertação. Mas isso não significa concordar com o erro do outro ou que o outro não vai responder por seus atos perante a Lei de Deus. Significa desatar o laço doloroso, significa libertar a nós mesmos do ocorrido.

Mais do que um ato moral, o perdão é uma necessidade para a saúde do espírito.

O exemplo de Jesus na cruz mostra isso claramente: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. ” Jesus (Lucas 23:34). Ao perdoar, Ele se desconecta de seus agressores, enquanto estes continuam sujeitos à lei de causa e efeito por suas próprias ações.

Não perdoar desafetos familiares traz consequências sérias, que são:

  1. Adoecimento físico: mágoa e ódio geram doenças psicossomáticas
  2. Adoecimento psicológico: a pessoa se torna amarga, presa ao passado
  3. Adoecimento temporal: deixa de viver o presente
  4. Adoecimento espiritual: aproximação de obsessores
  5. Reconexão forçada: reencontros futuros obrigatórios
  6. Inversão de papéis: risco de viver, futuramente, no núcleo familiar daquele que se odeia

2. Ressignificação

Depois do perdão, vem a necessidade de ressignificar. Aceitar as pessoas como elas são, abandonar idealizações e compreender que a família é uma oportunidade de sublimar sentimentos e evoluir.

3. O amor como remédio universal

E, no fim, o caminho sempre volta para o mesmo ponto:

  • Para os afetos não virarem desafetos: amor
  • Para os desafetos virarem afetos: amor

O remédio é o mesmo. Apliquemos o amor em suas diversas formas de expressão.

  • Amor como Paciência: Não responder na hora. Tomar um copo de água primeiro. Amor = Não reagir no impulso.
  • Amor como Compreensão: “O que ele pode estar passando?” Amor = Tentar entender antes de julgar.
  • Amor como Perdão: Não ficar alimentando aquilo todos os dias. Não falar mal pros outros. Amor = Parar de fortalecer o desafeto.
  • Amor como Limite: Você se afasta com respeito, não odeia. Amor = Dar oportunidade de recomeço, mudança.
  • Amor como Oração: Você não consegue gostar da pessoa. Ore. Amor = Querer o bem, mesmo sem afinidade.
  • Amor como Quebrador de Barreiras: Pequenos gestos, ser educado mesmo com quem foi rude. Amor = Iniciar a mudança.
  • Amor como Espíritos Imortais: Refletir: “Essa pessoa ainda não sabe agir melhor”, “Talvez já tivemos histórias antes”. Amor = Olhar além do comportamento atual.

Façamos tudo o possível para viver o amor em nossos lares, sabendo, porém, que isso não significa que vamos mudar ou salvar o outro. Estamos aqui na Terra para mudar a nós mesmos.

Quando nada disso funciona

E quando parece que nada resolve, entra em ação um mecanismo maior:

A benção da Reencarnação

A reencarnação cura os ódios entre desafetos.

Por meio do esquecimento do passado e da convivência, muitas vezes forçada, em uma nova família, Espíritos têm a oportunidade de construir novas experiências. Com o tempo, a memória do trauma vai se apagando, e novas lembranças são criadas. O ódio vai “desbotando”.

A família é o lugar do treino

Abandonar a família sob o pretexto de crescimento espiritual não faz sentido. É como largar a academia para ficar musculoso, não vai funcionar. É na família que conquistamos esse crescimento. Ali somos convidados ao exercício constante:

  • Da paciência
  • Do cuidado
  • Do perdão
  • Do amor

Na rua, o bem é esporádico. Em casa, ele é contínuo.

É no esforço da repetência que desenvolvemos virtudes.

Conclusão

O desafio é sermos melhores todos os dias, sem desistir.

Como nos ensina Emmanuel, no livro Indulgência:

“Se somarmos as inquietações e sofrimentos que infligimos a nós mesmos por não perdoarmos aos entes amados pelo fato de não serem eles as pessoas que imaginávamos ou desejávamos fossem, surpreenderemos conosco volumosa carga de ressentimento que nada mais é senão peso morto, a impelir-nos para o fogo inútil do desespero.”

A família não é o lugar mais fácil. É o lugar mais necessário.

E é ali que aprendemos, pouco a pouco, a amar.

No livro “Os mensageiros” de André Luiz, o espírito mentor nos esclarece:

“É que nos temos descuidado das coisas pequeninas. Grande é o oceano, minúscula é a gota, mas o oceano não é senão a massa das gotas reunidas.

Alguma coisa pequenina há de ser feita, antes de edificarmos as grandes coisas.

A floresta também começou de sementes minúsculas. E nós, espiritualmente falando, temos vivido em densa floresta de males, criados por nós mesmos, em razão da invigilância na escolha de sementes espirituais.

A palestra de uma hora, o pensamento de um dia, o gesto de um momento, podem representar muito em nossas vidas. Tenhamos cuidado com as coisas pequeninas e selecionemos os grãos de mostarda do Reino dos Céus.

Aprendamos, meus filhos, a ciência de começar, lembrando a bondade de Jesus a cada instante. O Mestre não nos desampara, segue-nos amorosamente, inspira-nos o coração. Tenhamos, sobretudo, confiança e alegria!

Que possamos dar o primeiro passo, começar com algo pequenino para semear o amor dentro de nossos lares. Porque toda vez que buscarmos essa boa convivência, Jesus estará ao nosso lado dizendo “confiança e alegria!” também.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação

Colaborou com esta publicação: Julia Fertig
Imagem em destaque: pexels.com

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