Entre Quedas e Recomeços: Parábola do Filho Pródigo

O coração de Deus se enche de misericórdia quando a alma cansada de sofrer decide retornar para o lugar que representa, ao lado do Criador.

Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, a trabalhadora Julia Fertig reflete sobre o tema “Entre quedas e recomeços”, à luz da parábola do filho pródigo, narrada no Evangelho de Lucas, capítulo 15: 13-32.


Este conteúdo foi inspirado na palestra de Jorge Elarrat sobre a parábola do filho pródigo, que aprofunda, de forma sensível e esclarecedora, os ensinamentos de Jesus. 

Contexto da Parábola do Filho Pródigo

Em diversas situações, Jesus foi questionado pelos Doutores da lei sobre o seu comportamento. Como por exemplo, quando Jesus recebeu pecadores e publicanos para seu convívio e foi questionado por isso:

“Todos os publicanos e pecadores se aproximaram de Jesus para ouvi‑lo. Contudo, os fariseus e os mestres da lei o criticavam: ― Este homem recebe pecadores e come com eles.” Lucas 15:1-7

Os publicanos eram considerados homens de má vida, traidores, pois eram cobradores de impostos para Roma. Não eram respeitados.

Para os sacerdotes da época, nem os publicanos nem os pecadores mereciam a misericórdia de Deus. É diante desse julgamento que Jesus apresenta três parábolas, e a última delas é a Parábola do Filho Pródigo.

O significado da Parábola do Filho Pródigo

Antes de iniciarmos, é necessário entender por que Jesus ensinou por meio de parábolas. As parábolas são formas simbólicas de ensino, na qual é usado elementos conhecidos do leitor, que faz parte do seu dia a dia, para que entenda significados e lições maiores. Por isso, precisamos refletir no que Jesus quis nos ensinar com a parábola a seguir.

Na parábola do filho pródigo, podemos compreender:

  • O pai representa Deus
  • O filho representa cada um de nós

“E disse: Certo homem tinha dois filhos. O mais novo deles disse ao pai: Pai, dá-me a porção que me cabe da propriedade. Ele repartiu os recursos entre eles.”

Esse pedido já carrega um significado profundo. O filho pede a herança com o pai ainda vivo.

Na prática, é como se dissesse: “Para mim, o senhor já não importa.”

E, surpreendentemente, o pai entrega. Deus nos dá liberdade, nos concede o livre-arbítrio.

As riquezas que recebemos

Esses “bens” representam tudo aquilo que Deus nos concede:

  • A vida
  • A saúde
  • A juventude
  • A família
  • As oportunidades
  • O aprendizado

São os tesouros da encarnação. E o que fazemos com eles?

O afastamento

“Não muitos dias depois, reunindo todas as coisas, o filho mais novo ausentou-se do seu país para uma região distante”

O natural seria permanecer perto, em segurança, no ambiente conhecido… Mas ele vai para longe. Assim também somos nós, muitas vezes. Mesmo cheios das bênçãos recebidas, escolhemos viver longe da casa do Pai, longe das leis de Deus, longe da verdadeira felicidade.

A queda

“[…] e lá dissipou a sua propriedade , vivendo dissolutamente.”

Aqui vemos três movimentos claros:

  • Afasta-se do pai
  • Leva consigo as riquezas
  • Desperdiça tudo

Quantas vezes fazemos o mesmo em nossas vidas? De posse dos recursos espirituais que recebemos, nos afastamos e passamos a viver de forma desregrada.

A escassez

“Depois dele gastar todas as coisas, houve naquela região uma fome severa , e ele começou a passar necessidade.”

Tudo que é material acaba, a saúde se desgasta, o dinheiro acaba, a juventude passa. Quando nos afastamos de Deus, corremos o risco de experimentar a fome. Não a material, mas espiritual.

E mesmo assim, escolhemos não voltar para perto do Pai.

O aprofundamento no erro

“E, partindo, associou-se a um dos cidadãos daquela região, que o enviou aos seus campos para apascentar porcos. Ele desejava saciar-se com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava.”

Se a terra é distante de Deus, dificilmente ali encontraremos o bem. E o jovem se associa ao ambiente. Assim somos nós, nos afastamos de Deus e nos associamos ao mal. O mal nem sempre é só aquele acompanhado de crueldade, mas o desânimo, tristeza, fofoca, melindre também representam o mal em nossas vidas. Quando vivemos dessa forma, nos associamos a outros espíritos que também vivem assim.

Para um Judeu, trabalhar com porcos era um dos trabalhos mais degradantes possíveis e mesmo assim o jovem aceitou por estar em necessidade. Mas, nem a comida lhe foi oferecida.

O despertar

“Mas, caindo em si, disse: Quantos assalariados do meu pai têm abundância de pães, e eu aqui pereço de fome!”

Aqui acontece o ponto de virada. Enquanto não “caímos em nós mesmos”, continuamos no erro, porque apesar de não estar bom, é o que conhecemos. Continuamos aceitando a fome, o sofrimento, a escassez espiritual… Mas chega um momento em que a alma diz: “Não aguento mais.”

E esse momento é decisivo. Muitas vezes, demoramos a voltar por orgulho, vergonha, teimosia.
Aprofundamos cada vez mais no nosso sofrimento exatamente por essa teimosia das nossas almas em voltar sobre os nossos próprios passos. Como se fosse mais fácil continuar sofrendo do que recomeçar. Mas quando decidimos mudar… tudo começa a se transformar.

A decisão de voltar

“Após levantar-me, irei ao meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; não sou mais digno de ser chamado teu filho, faze a mim como um dos teus assalariados.”

Ele não pede mais para ser filho, pede apenas: “Trata-me como um dos teus trabalhadores.”

Ele reconhece que errou, e não se considera digno de voltar como filho do Pai, quer apenas uma nova chance.

O reencontro

“Levantando-se, dirigiu-se ao seu próprio pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu…”

Mas o filho que volta não é o mesmo que partiu:

  • Antes: bem vestido, forte, cheio
  • Agora: magro, sujo, ferido

E então acontece uma das passagens mais belas do Evangelho, onde podemos tirar 3 preciosas lições:

  • 1. O Pai sempre nos aguarda

“Estando ele ainda longe, seu pai o viu…”

Vinha ele ainda longe quando seu pai o avistou… é um sinal de que o pai ficava na estrada, esperando pela volta dele. Podemos voltar, o Pai estará sempre a nos esperar. Jesus nos mostra. a preocupação de Deus em nos oferecer amor, colo, aconchego quando nós decidimos voltar para ele.  

  • 2. O Pai sempre nos vê como o filho que partiu

O pai foi capaz de reconhecer no mendigo que volta o filho amado que um dia partiu. E por maior que seja nossa queda, Deus sempre nos vê como seu filho amado.

  • 3. O Pai respeita nosso livre-arbítrio

Deus nos dá a liberdade de partir e viver nosso livre arbítrio, e nos aguarda, o tempo que for.

O amor que não julga

“[…] compadeceu-se , correu, lançou-se sobre o pescoço dele e o beijou repetidamente.

Aqui temos lições poderosas:

  • Não há julgamento
  • Não há reprovação
  • Não há cobrança

O pai corre. Na cultura da época, isso não era comum, era uma quebra de protocolo, pois os idosos não deveriam correr e sim os mais jovens. Mas a parábola nos mostra que o amor do Pai é maior que qualquer regra do mundo.

O coração de Deus se enche de misericórdia quando a alma cansada de sofrer decide retornar para o lugar que representa, a felicidade, que é ao lado do Criador. Não emite nenhuma palavra de condenação, repreensão, porque ele reconhece no filho que volta que ele não é o mesmo que foi. A lição foi aprendida

Não há falta, por maior que seja, que não se possa reparar.

A restauração

“Disse o pai para os seus servos: Trazei para fora a principal estola e vesti-o, dai um anel para a sua mão e sandálias para os pés. Trazei o novilho cevado, sacrificai-o e nos deleitemos, comendo-o, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado. E começaram a deleitar-se.”

Aqui o pai mostra que aceita o filho de volta, não na condição de servo, mas de filho, coisa que ele nunca deixou de ser aos olhos do Pai amoroso. Além disso, pede para trazerem a melhor roupa, o anel, sandálias e comida. Cada elemento tem um significado:

  • Melhor roupa → nova oportunidade para o espírito que errou e decidiu recomeçar, uma nova existência.
  • Anel → na época o anel era uma representação do pertencimento à família. Então mostra outro abrigo que Deus nos dá quando encarnamos aqui na Terra: A família.
  • Sandálias → representam proteção nos passos para o novo caminho a ser trilhado. O caminho do Homem Novo.
  • Comida → representa que o alimento pro corpo e pra alma nunca nos faltará enquanto estivermos ao lado do Pai.

Não há penas eternas

Com essa parábola, Jesus nos mostra que não existem quedas definitivas, não existem penas eternas. O sofrimento dura até o momento em que decidimos voltar para ao lado do Pai.

Deus não nos abandona, Ele nos aguarda. Seja na soleira da porta, na curva da estrada ou no silêncio da nossa consciência, mas Ele sempre espera.

Não percamos mais tempo, se estamos aqui hoje, é porque, em algum nível, já sentimos saudade de estar ao lado do Pai amoroso. Cansamos do mesmo erro, do mesmo sofrimento… e decidimos voltar.

O amor de Deus tudo abraça. Se olharmos para cima veremos as estrelas brilhando. Para o chão, a lua refletindo no espelho das aguas. Para os lados, as flores, o canto dos pássaros. Onde quer que estejamos, vemos o amor de Deus. 

Esse amor que rege tanto o grão de areia quanto o gigantesco sol que nos aquece. Aqueles que se equivocam e os que já acertam. A Lei de Deus é igual para todos: o mesmo infinito amor. 

Acompanhe agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

* Colaborou com esta publicação: Julia Fertig
** Imagem em destaque: O retorno do filho pródigo, de Bartolomé Esteban Murillo (1667-70), óleo em canvas, 236 x 262 cm, disponível na Galeria Nacional de Artes de Washington (EUA). Domínio público.

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