Meu reino não é deste mundo

O Espiritismo retira a vida futura do campo das hipóteses abstratas e a posiciona na categoria de fato constatável, racional e demonstrável.

Quando Jesus proferiu as célebres palavras diante de Pôncio Pilatos — “Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas o meu reino ainda não é aqui” (João, 18:33, 36 e 37) —, Ele estabeleceu o ponto central de todo o seu ensinamento: a Imortalidade da Alma.

Como destacado em palestra do trabalhador Alex Mate na doutrinária de sábado da Associação Espírita Fé e Caridade, sem a perspectiva e o entendimento claro da vida futura, a moral do Cristo perde o sentido profundo, tornando-se vaga ou restrita a uma única existência.

Com base no estudo do Capítulo 2 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, compreendemos a transição do entendimento humano sobre o além e como aplicar o desapego em nosso cotidiano.

1. O Contexto Histórico: As Visões Imprecisas Sobre a Morte

Na época em que Jesus caminhou na Terra, o povo hebreu possuía noções bastante imprecisas e fragmentadas a respeito da sobrevivência da alma. Conforme contextualizado no estudo doutrinário da AEFC, a sociedade da Judeia dividia-se em correntes com interpretações muito distintas sobre o pós-morte:

  • Os Saduceus: Representavam a elite daquele momento e possuíam uma visão puramente materialista. Acreditavam que a existência se resumia à vida encarnada; morreu, acabou.
  • Os Fariseus: Criam em uma sobrevivência após o túmulo, mas guardavam uma noção muito precária. Acreditavam firmemente que todas as recompensas e punições de Deus seriam recebidas mecanicamente na vida presente, associando riqueza material à bênção divina e as catástrofes ou doenças a castigos imediatos do Criador.
  • A Concepção de Anjos: Para a mentalidade geral da época, os anjos eram tidos como uma criação perfeitamente separada e privilegiada. O Espiritismo veio retificar essa visão, demonstrando que os chamados anjos são os próprios seres humanos que atingiram o estado de Espírito puro através do esforço e da evolução moral pelas múltiplas existências.

Diante desse cenário de incertezas, Jesus utilizou de pedagogia gradual. Sabendo que a humanidade de seu tempo não suportaria a revelação integral, Ele plantou as sementes da reencarnação e da imortalidade em diálogos reservados, como o memorável encontro com Nicodemos e o episódio da Transfiguração no monte Tabor.

2. Dois Mundos, Dois Conjuntos de Valores

A mensagem do Cristo desenha uma linha nítida entre duas realidades distintas que habitamos simultaneamente: o Mundo Material e o Mundo Espiritual. Cada um desses cenários é governado por forças e objetivos opostos:

Mundo Material (Transitório)Mundo Espiritual (Verdadeira Pátria)
O império do Poder Terreno e das convençõesO império do Amor Incondicional
Foco na Riqueza Material e no acúmuloFoco na Caridade e no bem operado
Busca pelo Prazer Imediato e sensorialBusca pela Evolução Moral da alma
Prática do Apego e do EgoísmoPrática do Desapego e da Fraternidade

Olhar a vida material sob as lentes do imediatismo assemelha-se a observar uma tapeçaria pelo avesso: enxergamos apenas uma confusão de fios entrelaçados. Contudo, quando o Espiritismo nos desvenda a realidade da vida futura, o panorama se inverte; percebemos que as aparentes injustiças, dores e perdas da Terra nada mais são do que incidentes e lições pedagógicas destinadas ao progresso infinito do Espírito.

Nesse cenário, quem é o verdadeiro vencedor? Os supostos “vencedores” do mundo comumente partem de mãos vazias no momento do desencarne, enquanto os atos consagrados pela posteridade na economia divina são aqueles estruturados no desapego e no amor ao próximo.

3. As Aflições da Vida sob a Justiça Divina

A Doutrina Espírita nos ensina que encarnamos com o objetivo claro de enfrentar provas e expiações. Nada ocorre por acaso no laboratório da Criação. Pela Lei de Causa e Efeito, colhemos rigorosamente aquilo que semeamos, seja na presente ou em encarnações anteriores.

As dores humanas, portanto, encontram sua causa primordial nas imperfeições do próprio Espírito e nas suas necessidades urgentes de aprendizado. O sofrimento não representa uma punição de Deus, mas uma pedagogia amorosa que corrige a nossa rota espiritual. A certeza da imortalidade da alma e a confiança na justiça soberana do Pai agem como bálsamo e consolação, dando-nos a força necessária para superar as vicissitudes do cotidiano com coragem e bom ânimo.

4. O Desapego Como Caminho de Liberdade no Dia a Dia

Compreender que a Terra é uma escola temporária — uma mera estação de passagem e não a nossa morada definitiva — é o primeiro passo para conquistar a verdadeira liberdade moral. Mas como aplicar concretamente a máxima de “estar no mundo, sem ser do mundo” em nossa rotina diária?

  1. Praticar a Caridade: Doar-se em recursos, tempo e paciência, estendendo a mão ao necessitado sem aguardar recompensas ou aplausos materiais.
  2. Cultivar a Humildade: Reconhecer que os títulos terrenos, as posições de destaque e os bens materiais são meros empréstimos divinos para fins de aprendizado, e que perante Deus somos todos irmãos de mesma origem.
  3. Buscar a Evolução Moral: Utilizar cada desafio profissional, familiar ou social como um convite ao autoaperfeiçoamento, disciplinando os pensamentos e as reações.
  4. Não se Escravizar pelas Paixões: Usar as utilidades do mundo com responsabilidade e generosidade, sem permitir que o orgulho ou o egoísmo governem as nossas decisões econômicas ou afetivas.

O Que Há em Nós do Reino de Jesus?

O Espiritismo retira a vida futura do campo das hipóteses abstratas e a posiciona na categoria de fato constatável, racional e perfeitamente demonstrável, seja pelos relatos mediúnicos ou pelas próprias evidências que a ciência progressiva estuda através das experiências de quase-morte e regressões.

Ao final desta reflexão, cabe a cada um de nós o autoexame sincero: Se você tivesse que partir hoje para a pátria espiritual, o que em você é “deste mundo” e o que já pertence genuinamente ao “Reino de Jesus”?

Que possamos trabalhar diariamente na construção desse patrimônio imaterial, recordando a diretriz do Mestre: “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33).

Acompanhe também uma reflexão sobre este tema feita no Evangelho no Lar da AEFC:

** imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.

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