Vivemos em uma época em que a ciência avança a passos largos na compreensão do corpo humano e da medicina diagnóstica. No entanto, quando abrimos as páginas do Evangelho e nos deparamos com os impressionantes relatos das curas operadas por Jesus, a humanidade frequentemente oscila entre dois extremos: a negação cética ou a aceitação de que tais fatos foram derrogações miraculosas das leis divinas.
Para a Doutrina Espírita, contudo, o Cristo não veio violar as leis da Natureza, mas cumpri-las em sua total integridade. As curas evangélicas não constituem prodígios sobrenaturais; elas encontram plena explicação nas propriedades do fluido perispiritual, no magnetismo e nas sublimes leis que regem a vida espiritual.
O que são as Curas sob a Ótica Espírita?
Confrontando os relatos evangélicos com o conhecimento acumulado pelo Espiritismo, reconhece-se sem dificuldade que há entre eles identidade de causa e de efeito com fenômenos que ocorrem ainda hoje. O princípio fundamental dessas curas repousa nas propriedades do fluido perispiritual, que atua como o agente magnético por excelência.
No estado de encarnação, a cura exige que o elemento fluídico atinja a matéria orgânica lesada a fim de repará-la. Como nos ensina o Dr. Vicente Pessoa, da Associação de Médicos Espíritas do estado de Goiás, o processo de adoecimento físico muitas vezes funciona como um filtro depurador para o Espírito envenenado por suas próprias imperfeições. Em entrevista ao podcast “Espiritismo em Pauta“, Dr Vicente pontua de forma esclarecedora: “A doença no corpo físico é o processo de cura do Espírito. O corpo adoece para que o Espírito se cure.” Tratamos o corpo através da medicina humana, mas a saúde real e definitiva pertence ao Espírito eterno.
Assim como Jesus utilizava as curas não para satisfazer a curiosidade dos indiferentes, mas para prender as criaturas pelo coração através do bem, o Espiritismo prova sua missão providencial exatamente pelos seus benefícios morais e consoladores.
A Ciência dos Fluidos e a Tecnologia de Jesus
O fluido cósmico universal é a matéria elementar primitiva do universo, assumindo estados que vão da imponderabilidade etérea à materialização tangível. Os Espíritos não manipulam esses elementos como os homens manipulam os gases, mas empregam o pensamento e a vontade, que para eles funcionam como as mãos para o homem.
Na mediunidade curadora, o fluido pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador ou atraído pelo desejo ardente e pela confiança do doente. Allan Kardec explica detalhadamente esse mecanismo em A Gênese:
Com relação à corrente fluídica, o primeiro age como uma bomba calcante e o segundo como uma bomba aspirante. Algumas vezes, é necessária a simultaneidade das duas ações; doutras, basta uma só.
— Allan Kardec em A Gênese, cap. 15.
A fé, portanto, longe de ser uma virtude mística abstrata, opera como uma verdadeira força atrativa magnética. O mestre lionês complementa na mesma obra:
Compreende-se que a fé a que Ele se referia não é uma virtude mística, qual a entendem muitas pessoas, mas uma verdadeira força atrativa, de sorte que aquele que não a possui opõe à corrente fluídica uma força repulsiva, ou, pelo menos, uma força de inércia, que paralisa a ação.
— Allan Kardec em A Gênese.
Jesus, como Espírito puro colocado muitíssimo acima da humanidade terrestre, possuía um perispírito tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos do nosso planeta. Sua alma, constantemente desprendida das limitações da carne, conferia-lhe uma imensa força magnética direcionada exclusivamente para o bem.
Como explica o Dr. Vicente Pessoa sobre essa impressionante “tecnologia” espiritual do Cristo: “Jesus emitia uma onda super ultra curta, com um poder de penetração fantástico, capaz de atingir o núcleo da célula e reconfigurar a informação biológica instantaneamente.”
Análise das Passagens Evangélicas
A obra A Gênese, de Allan Kardec, analisa de forma minuciosa os mecanismos naturais utilizados pelo Mestre em seus atendimentos. Abaixo, detalhamos as principais curas e seus ensinamentos atemporais:
1. A Mulher com Hemorragia
- Referências: Mateus 9:20-22; Marcos 5:25-34; Lucas 8:43-48
- O Fenômeno: A mulher tocou as vestes de Jesus com profunda confiança. O efeito ocorreu sem um ato deliberado da vontade do Cristo; bastou a irradiação fluídica normal de seu perispírito para que a cura acontecesse. Kardec anota que as palavras do Evangelho expressam “o movimento fluídico que se operara de Jesus para a doente; ambos experimentaram a ação que acabara de produzir-se”.
- A Palavra do Mestre: “Minha filha, tua fé te salvou; vai em paz e fica curada da tua enfermidade.”
- Ensinamento: A fé sincera funciona como um polo receptor que atrai ativamente os recursos dispensados pelo plano espiritual.
2. O Cego de Betsaida
- Referências: Marcos 8:22-26
- O Fenômeno: Jesus levou o cego para fora da cidade, passou-lhe saliva nos olhos e impôs-lhe as mãos por duas vezes. Kardec esclarece que “a cura não foi instantânea, porém gradual e consequente a uma ação prolongada e reiterada, se bem que mais rápida do que na magnetização ordinária”.
- A Palavra do Mestre: “Vai para tua casa; se entrares na cidade, a ninguém digas o que se deu contigo.”
- Ensinamento: Há processos de reajuste orgânico que exigem a repetição e a gradação do tratamento magnético e fluídico, respeitando o tempo de absorção da matéria.
3. O Paralítico de Cafarnaum
- Referências: Mateus 9:1-8; Marcos 2:1-12; Lucas 5:17-26
- O Fenômeno: Diante do paralítico deitado em seu leito, Jesus associa diretamente a cura física à quitação de uma dívida espiritual. Kardec elucida em A Gênese: “Se, portanto, a enfermidade daquele homem era uma expiação do mal que ele praticara, o dizer-lhe Jesus: ‘Teus pecados te são remitidos’ equivalia a dizer-lhe: ‘Pagaste a tua dívida; a fé que agora possuis elidiu a causa da tua enfermidade; conseguintemente, mereces ficar livre dela.'”
- A Palavra do Mestre: “Meu filho, tem confiança; perdoados te são os teus pecados. (…) Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.”
- Ensinamento: O Espiritismo esclarece, por meio da pluralidade das existências, que os males do corpo são muitas vezes expiações do passado. Cessada a causa espiritual pelo arrependimento e pela reparação, o efeito patológico desaparece.
4. Os Dez Leprosos
- Referências: Lucas 17:11-19
- O Fenômeno: Dez leprosos foram curados a caminho de se mostrarem aos sacerdotes, mas apenas um deles — um samaritano, considerado herético e desprezado pelos judeus — voltou para agradecer.
- A Palavra do Mestre: “Não foram curados todos dez? Onde estão os outros nove? (…) Levanta-te; vai; tua fé te salvou.”
- Ensinamento: Conforme as lições de Kardec em A Gênese, ao dizer isso, Jesus “fez ver que Deus considera o que há no âmago do coração e não a forma exterior da adoração”.
5. As Curas no Sábado (A Mulher Curvada e o Homem da Mão Seca)
- Referências: Mulher Curvada: Lucas 13:10-17 | Mão Seca: Mateus 12:9-13; Marcos 3:1-8; Lucas 6:6-11
- O Fenômeno: Jesus operava curas intencionalmente aos sábados, gerando indignação nos chefes das sinagogas que priorizavam o repouso formal da lei mosaica.
- A Palavra do Mestre: “Hipócrita, qual de vós não solta da carga o seu boi ou seu jumento em dia de sábado…? Por que então não se deveria libertar, em dia de sábado, esta filha de Abraão…?”
- Ensinamento: Conforme pontua Kardec em A Gênese, o Cristo operava essas curas “para ter ensejo de protestar contra o rigorismo dos fariseus (…) Queria mostrar-lhes que a verdadeira piedade não consiste na observância das práticas exteriores e das formalidades; que a piedade está nos sentimentos do coração.”
6. O Paralítico da Piscina de Betesda
- Referências: João 5:1-17
- O Fenômeno: O homem estava enfermo há 38 anos esperando que um “anjo” movimentasse as águas terapêuticas da piscina intermitente. Jesus o cura instantaneamente.
- A Palavra do Mestre: “Vês que foste curado; não tornes de futuro a pecar, para que te não aconteça coisa pior.”
- Ensinamento: Kardec adverte sobre a gravidade da reincidência nas imperfeições: “Por essas palavras, deu-lhe a entender que a sua doença era uma punição e que, se ele não se melhorasse, poderia vir a ser de novo punido e com mais rigor, doutrina essa inteiramente conforme à do Espiritismo.”
7. O Cego de Nascença
- Referências: João 9:1-34
- O Fenômeno: Jesus utiliza uma mistura de terra e saliva para ungir os olhos do cego. O codificador explica que “aquela espécie de lama feita de saliva e terra nenhuma virtude podia encerrar, a não ser pela ação do fluido curativo de que fora impregnada. É assim que as mais insignificantes substâncias, como a água, por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas e efetivas, sob a ação do fluido espiritual ou magnético”.
- A Palavra do Mestre: “Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas, para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus.”
- Ensinamento: A pergunta dos discípulos sobre se o homem nascera assim por pecado dele revela que eles tinham a intuição de uma existência anterior. O sofrimento pode ser uma provação valiosa escolhida para o progresso do Espírito, visto que “Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade”.
8. Lázaro e o Filho da Viúva de Naim
- Referências: Lázaro: João 11:1-44 | Filho da Viúva: Lucas 7:11-17
- O Fenômeno: Casos interpretados historicamente como ressurreição corpórea. À luz do Espiritismo, tratavam-se de fenômenos de catalepsia ou letargia profunda, onde o laço perispiritual ainda ligava a alma ao corpo.
- A Palavra do Mestre: “Lázaro, vem para fora!”
- Ensinamento: Analisando esses episódios, o Dr. Vicente Pessoa esclarece: “Jesus não fez o milagre de ressuscitar um cadáver em putrefação. O que houve foi um estado de letargia, de catalepsia, onde os laços fluídicos ainda prendiam o Espírito ao corpo, e Jesus, com sua imensa força magnética, promoveu a reanimação vital.” Ele agiu em absoluta conformidade com as leis biológicas.
O Convite à Saúde Integral
Ao analisarmos as curas de Jesus, percebemos que o maior benefício trazido pelo Mestre não foi o restabelecimento provisório de corpos carnais que, mais cedo ou mais tarde, retornariam ao pó. O verdadeiro “milagre” do Cristo foi a proposta de renovação moral da humanidade.
Como resume com sensibilidade o Dr. Vicente Pessoa: “O maior milagre de Jesus foi a transformação que Ele provocou na humanidade através do amor e do perdão. A cura do corpo era apenas o convite para a cura da alma.”
A Doutrina Espírita nos convida a sermos agentes ativos da nossa própria cura. Através da purificação dos nossos pensamentos e da prática sincera da caridade, construímos em nosso perispírito uma couraça fluídica salutar, rechaçando as influências deletérias e sintonizando a nossa mente com as fontes sublimes da vida.
Assista agora à integra da palestra que inspirou esta publicação:
** Imagem em destaque via: DALLE.E do ChatGPT.