Paulo de Tarso, o “Apóstolo dos Gentios“, dimensionava para uma humanidade que identificou escravizada um programa de resgate para o qual atuava intensamente. Sua missão era clara: ele queria que a Revelação de Deus se fizesse para Seus filhos e que estes, com a verdade deslumbrada, pudessem partir para uma emancipação espiritual definitiva.
Em sua visão, o círculo se completaria com o homem reconciliado com o Criador e plenamente liberto das amarras do passado.
Para compreender esse progresso, Paulo não se limitava ao progresso da carne; ele via muito além dela. Percebia na essência de toda alma o que hoje a Codificação Espírita nos esclarece: o homem é um Espírito encarnado. Como lemos em O Livro dos Espíritos:
Há no homem três coisas: 1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.
— O Livro dos Espíritos, Introdução, VI.
O Homem Interior e o Organismo Espiritual
Paulo concebia a existência de dois planos: o visível e o invisível. A carne é animada pelo Espírito que a habita. Na sua existência temporal, o homem se apresenta com a imagem que nos é conhecida na Terra, transitória, porém. Essa carne não será ressuscitada; ela é apenas o casulo para que se desenvolva o “homem interior” — o Espírito — e possa se libertar das chamadas da matéria. O ápice da pureza espiritual é o espírito ressureto, uno com Deus nas Dimensões Crísticas.
O apóstolo adentra a questão do corpo espiritual quando deixa transparecer a ideia de que a carne pode acabar e o homem, no seu organismo espiritual, permanecer intacto, pleno de vida e plenamente identificado através de sua individualidade. Esta é uma ideia que se alinha perfeitamente às colocações espíritas acerca do perispírito, que constitui a vestimenta dos Espíritos. Allan Kardec define esse laço na questão 93 de O Livro dos Espíritos:
Envolve-o [o espírito] uma substância, vaporosa para ti, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira.
— O Livro dos Espíritos, questão 93.
Influências Espirituais e Livre-Arbítrio
Paulo de Tarso não apenas identificou o “homem interior” ou a “energia vivificante”; ele admitiu abertamente a presença de inteligências desencarnadas influenciando a vida do homem. Ele reconhecia forças espirituais em oposição à Vontade de Deus, exortando os cristãos:
…Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.
— Efésios 6:12,13.
A Doutrina Espírita confirma essa realidade ao tratar da obsessão e da influência espiritual. Na questão 459 de O Livro dos Espíritos, a espiritualidade superior afirma que os Espíritos influem em nossos pensamentos e atos “muito mais do que imaginais, pois frequentemente são eles que vos dirigem”.
No entanto, o homem, dotado de livre-arbítrio, faz sua própria escolha. Sem essa liberdade, como ensina a questão 843 de O Livro dos Espíritos, “o homem seria uma máquina”.
O Conflito Íntimo e o Deus de Amor
Paulo acentuava o valor da moralidade, que deveria abranger totalmente o interior do homem — sentimentos e razão —, levando-o ao combate da escravidão às coisas materiais. O homem vive em conflito permanente entre o Chamado Divino e aquela escravidão. Paulo caracteriza essa situação em sua carta aos Romanos:
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.
— Romanos 7:19-21.
Sua alma apaziguou o próprio conflito quando descobriu um Deus diferente daquele que conhecera, distanciado e a quem se temia. Em suas novas ideias, surge um Deus Amoroso e Misericordioso que lhe toca o coração. Através de Jesus, ele descobre o Pai que espera pacientemente pela chegada do último filho.
Paulo espera e trabalha em Deus, confiante na Sua Presença. Esta percepção, nos dias de hoje, já povoa muitas mentes que, num raciocínio lógico, deixaram de temer a Deus para se preocuparem em descobri-Lo e com Ele trabalhar para a elevação do nível moral do mundo. Como resume a instrução dos Espíritos em O Evangelho Segundo o Espiritismo:
O homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza.
— O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 17, item 3.
Acompanhe agora a palestra “Paulo e Estevão”:
*Colaborou para esta publicação: Maria Thereza Carreço de Oliveira.
** Imagem em destaque: Ananias devolvendo a visão a São Paulo (por Pietro da Cortona, 1631), via Creative Commons.