Vivemos tempos de muitas exigências. A rotina acelerada, os compromissos, as preocupações e os desafios da convivência fazem com que, muitas vezes, nossos lares também reflitam o cansaço e as inquietações que carregamos do mundo.
Diante dessa realidade, a Doutrina Espírita nos convida a cultivar um hábito simples e profundamente transformador: o Evangelho no Lar. Em palestra na doutrinária de quinta-feira, o trabalhador da Associação Espírita Fé e Caridade Paulo Allebrandt esclarece que, mais do que uma reunião semanal, o evangelho no lar é um encontro com Jesus. Um momento de pausa, de oração, de estudo e de renovação íntima, capaz de fortalecer os vínculos familiares e transformar o ambiente espiritual da nossa casa.
O espírito Neio Lúcio, no livro Jesus no Lar, psicografado por Francisco Candido Xavier, relata uma cena de Jesus na Galiléia, na casa de Simão Pedro. Um lar comum: cheio de gente, de vozes, preocupações e as conversas que dominavam o ambiente, Jesus convida todos a se reunirem ao redor da mesa. Abre as Escrituras, comenta as Leis Divinas e, pouco a pouco, a paz toma conta daquele lar.
Não foi por acaso.
O Cristo nos ensinava que a transformação do mundo começa dentro de casa. Antes de alcançar multidões, o Evangelho precisa encontrar espaço na intimidade da família. É no lar que aprendemos a viver o amor que pregamos.
As bases doutrinárias do Evangelho no Lar
O Evangelho no Lar é uma rotinas mais difundidas entre os espíritas, mas sua prática não está referenciada nos livros da codificação escritos por Allan Kardec. Porém, o ato de reunir a família para orar e estudar os ensinamentos de Jesus possui bases doutrinárias sólidas e profundas dentro do Espiritismo.
No Espiritismo sabemos que nenhuma prática deveria ser feita só por hábito ou repetição. Kardec nos traz a fé raciocinada, ou seja, a ideia de que cada gesto nosso precisa ter um sentido que possamos compreender, não apenas repetir.
O Evangelho no Lar nasce justamente desse entendimento. Reunir-se em torno dos ensinamentos de Jesus e criar oportunidades de aprendizado, fortalecimento espiritual e sintonia com os benfeitores que nos assistem.
Como ensinou o Mestre:
Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.
— Mateus 18:20.
Estar reunido em nome de Jesus não significa apenas ocupar o mesmo espaço físico. Significa unir pensamentos, sentimentos e propósitos no bem, criando um ambiente favorável à presença da Espiritualidade Superior.
No Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 28 que traz a coletânea de preces, entendemos que não basta um agrupamento material de pessoas na sala de casa. É preciso que as mentes estejam unidas espiritualmente, em comunhão de ideias para o bem. Quando a família senta à mesa com esse propósito sincero, nós criamos um campo magnético que atrai a presença dos bons Espíritos que representam o Cristo no ambiente doméstico.
A prece em comum tem ação mais poderosa, quando todos os que oram se associam de coração a um mesmo pensamento e colimam o mesmo objetivo, porquanto é como se muitos clamassem juntos e em uníssono. Mas, que importa seja grande o número de pessoas reunidas para orar, se cada uma atua isoladamente e por conta própria?! Cem pessoas juntas podem orar como egoístas, enquanto duas ou três, ligadas por uma mesma aspiração, orarão quais verdadeiros irmãos em Deus, e mais força terá a prece que lhe dirijam do que a das cem outras.
— O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 28 itens 4 e 5.
Em O Livro dos Espíritos, aprendemos sobre o valor da prece sincera. Quando realizada em conjunto, essa força se amplia. Cada coração que se une em oração soma suas vibrações a dos demais. O pensamento coletivo dirigido ao bem estabelece uma sintonia mais intensa com os Espíritos benfeitores, favorecendo o amparo espiritual e fortalecendo aqueles que participam da reunião.
Mesmo quando apenas uma pessoa realiza o Evangelho no Lar, nunca está sozinha. Toda prece sincera encontra eco na Espiritualidade amiga.
Em O Livro dos Médiuns, compreendemos que toda reunião constitui um verdadeiro “ser coletivo”, formado pela soma das vibrações de seus participantes. Quanto maior a harmonia entre eles, mais saudável será a influência espiritual presente naquele ambiente.
A Doutrina Espírita esclarece, em A Gênese (Cap. XIV, 18), que o pensamento humano atua diretamente sobre os fluidos que preenchem a nossa casa. Se passamos o dia brigando, reclamando, vibrando no ciúme ou no orgulho, nós estamos, sem perceber, viciando os fluidos do ambiente, deixando o ar espiritual “pesado” (Cap. XIV, 21).
Assim como abrimos as janelas para renovar o ar de uma casa, o Evangelho no Lar promove uma renovação fluídica do ambiente. A leitura edificante, a oração e os bons pensamentos modificam nossa sintonia vibratória, favorecendo a atuação dos benfeitores espirituais e tornando o lar um espaço de paz, equilíbrio e proteção. Não se trata de um ritual ou de um ato mágico, mas da consequência natural da mudança de nossos próprios pensamentos e sentimentos.
O lar como escola de evolução
O lar é muito mais do que um espaço físico. É o primeiro educandário da alma. É onde reencontramos Espíritos com quem temos compromissos de amor, aprendizado e reparação. É no ambiente familiar que exercitamos diariamente a paciência, o perdão, a compreensão e a caridade. É onde a gente acerta as contas com o passado e constrói o futuro.
E para nos ajudar a manter esse laboratório em harmonia, a Espiritualidade nos propõe essa ferramenta simples: uma reunião semanal, em família (ou mesmo sozinhos), para estudar Jesus.
Por isso, cuidar espiritualmente da própria casa é também cuidar do nosso processo de crescimento moral.
Como realizar o evangelho no lar
A beleza dessa prática está justamente em sua simplicidade. A sugestão dada é:
- Escolha um dia e um horário fixos da semana. A regularidade importa: a Espiritualidade também se organiza para estar presente naquele compromisso.
- Inicie com uma prece espontânea e sincera.
- Em seguida, leia um trecho, sequencial ou aberto de forma aleatória, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ou de outra obra edificante.
- Abra espaço para comentários breves, sempre voltados à autoeducação. O Evangelho não é um momento para corrigir os outros, mas para refletirmos sobre aquilo que cada um de nós precisa transformar em si mesmo.
- Encerre com vibrações de amor: pelo lar, pelos doentes, pelos parentes, pela paz do mundo.
- Se quiser, coloque uma jarra de água por perto durante a prece, para receber os fluidos benfazejos que se depositam ali.
- Quando houver crianças, é recomendável adaptar a linguagem à sua compreensão, utilizando obras infantis e recursos que despertem seu interesse pelos ensinamentos de Jesus.
O mais importante é perseverar. Nem sempre todos os familiares aceitarão participar da reunião. Isso não deve ser motivo de desânimo.
O Evangelho no Lar pode ser realizado por apenas uma pessoa. O compromisso assumido com Jesus jamais será em vão. A perseverança, silenciosa e constante, transforma pouco a pouco o ambiente e toca, no tempo certo, os corações daqueles que convivem conosco.
Um convite ao coração
Quando você separar um momento nesta semana para abrir o Evangelho, saiba que estará repetindo, dois mil anos depois, o mesmo gesto de Jesus na casa de Pedro. Mais do que uma reunião semanal, trata-se de um encontro com Jesus. Um momento de pausa, de oração, de estudo e de renovação íntima, capaz de fortalecer os vínculos familiares e transformar o ambiente espiritual da casa.
Nunca poderemos enumerar todos os benefícios da oração. Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico. Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder. Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno. O homem que ora traz consigo inalienável couraça. O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza, compreenderam? As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contato com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm a distância, procurando outros rumos…
— Os Mensageiros, por André Luiz e Chico Xavier, cap. 37: “No santuário doméstico”.
Não importa se a família é grande ou pequena. Não importa se todos participam ou se apenas um coração persevera. Sempre que abrimos o Evangelho e elevamos o pensamento ao Cristo, abrimos também as portas do nosso lar para Sua presença.
Que possamos reservar esse momento semanal como um compromisso de amor com nossa família, conosco mesmos e com Jesus.
Em um mundo que tanto necessita de paz, o Evangelho no Lar permanece como um convite amoroso da Espiritualidade para que transformemos nossas casas em pequenos focos de luz.
A AEFC realiza aos domingos 20h (horário de Brasília) O Culto do Evangelho no Lar em nossas redes sociais. Participe!
Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
*Contribuiu para esse artigo: Paulo Cesar Allebrandt.
** Imagem via DALL.E do ChatGPT.
