Entre as figuras femininas que encontramos nos Evangelhos, Maria de Betânia nos oferece um exemplo delicado e profundo de sensibilidade espiritual. Irmã de Marta e Lázaro, ela aparece em três momentos significativos da trajetória de Jesus. Em cada um deles, encontramos uma oportunidade de refletir sobre nossas escolhas, nossos afetos e a maneira como temos conduzido a própria existência.
Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, a trabalhadora Fabiana Fertig nos convida a conhecer as personagens da Boa Nova, pois elas trazem um pouco de nós. Iremos nos reconhecer ali, nos sucessos e insucessos de cada um.
Os relatos sobre Maria de Betânia, podem ser encontrados nas narrativas dos quatro evangelhistas: Mateus, Marcos, João e Lucas. E em todos se destaca como discípula de profunda fé e ouvinte atenta dos ensinamentos de Jesus
1. Aos pés de Jesus: a escolha da boa parte
O primeiro episódio está registrado em Lucas 10:38–42.
“Jesus é recebido na casa de Marta, que se ocupa dos preparativos necessários para acolhê-lo. Maria, porém, senta-se aos pés do Mestre e escuta suas palavras. Sentindo-se sobrecarregada, Marta pede que Jesus intervenha para que a irmã a ajude. O Cristo, então, chama sua atenção para as muitas preocupações e reconhece que Maria escolheu a boa parte, aquela que não lhe será tirada.”
O Evangelho Redivivo- livro IV retoma essa passagem ao apresentar Maria como uma mulher dedicada ao ministério de Jesus e atenta aos seus ensinamentos. O mesmo estudo ressalta que Marta não deve ser criticada: sua dedicação expressava lealdade e zelo pelo Mestre. Jesus não desvaloriza o serviço de Marta nem ensina que as tarefas materiais devam ser abandonadas. A questão está em perceber quando as preocupações, mesmo legítimas, passam a ocupar tanto espaço que nos impedem de desfrutar aquilo que realmente alimenta o Espírito.
A pergunta que essa cena nos dirige é simples: estamos vivendo ou apenas cumprindo tarefas?
Na atualidade, somos frequentemente envolvidos por compromissos, prazos, responsabilidades familiares e exigências profissionais. Uma sociedade que valoriza a produtividade, a rapidez e a capacidade de realizar muitas coisas ao mesmo tempo. A tecnologia nos mantém permanentemente conectados, mas nem sempre verdadeiramente presentes.
Maria nos ensina a interromper esse movimento, ainda que por alguns instantes, para escutar.
Escutar Jesus, hoje, significa abrir espaço para o estudo do Evangelho, para a prece sincera e para a reflexão que nos ajuda a reconhecer nossas imperfeições. Significa também aprender a ouvir as pessoas sem pressa, acolher uma dificuldade sem julgamentos precipitados e estar presentes nas relações que a vida nos confiou.
Em sua palestra, Fabiana cita uma fala de Jorge Elarrat:
“Ninguém pode tirar o conhecimento espiritual, então quando nós conhecemos o Evangelho, vamos olhar a tudo com o olhar desse aprendizado.”
A espiritualidade não nos afasta das responsabilidades cotidianas. Ao contrário, ajuda-nos a realizá-las com mais equilíbrio, discernimento e amor. Não se trata de escolher entre agir e contemplar, entre trabalhar e orar. Trata-se de aprender a servir sem perder a conexão com aquilo que dá sentido ao serviço.
Marta nos ensina a importância de servir, da dedicação. Maria nos recorda que o serviço precisa estar acompanhado de consciência, sensibilidade e conexão com os valores que desejamos cultivar.
2. Diante da morte de Lázaro: a fé que acolhe as lágrimas
O segundo episódio está narrado em João 11:1–44.
“Lázaro adoece gravemente, e suas irmãs enviam uma mensagem a Jesus. Quando o Mestre chega a Betânia, o irmão já está morto e sepultado. Marta vai ao encontro de Jesus, e expressa sua convicção de que, se Ele estivesse presente, seu irmão não teria morrido. Maria, ao encontrá-lo, lança-se aos seus pés e chora, manifestando sua dor e também dizendo a Jesus que se ele estivesse presente, Lázaro não teria morrido. Jesus se comove diante da dor daqueles que ama e também chora.”
O relato revela a proximidade do Cristo com a experiência humana. Aquele que ensina a vida espiritual não permanece indiferente diante do sofrimento. Ele se aproxima, compartilha a emoção e oferece amparo. É uma cena de grande ternura. Aquele que ensinava a vida espiritual e anunciava a continuidade da existência não se mantém distante das lágrimas humanas.
Às vezes, acreditamos que ter fé significa não sofrer, não sentir medo ou não demonstrar tristeza diante das dificuldades. Como se a confiança em Deus exigisse de nós uma serenidade permanente, imune às perdas e às incertezas. Ela se aproxima de Jesus em lágrimas. Não precisa esconder a dor para estar diante dele.
Na compreensão espírita, a imortalidade da alma e a continuidade da vida oferecem fundamentos para a esperança diante da morte. Entretanto, compreender racionalmente que a vida prossegue não significa deixar de sentir saudade, nem torna ilegítimo o sofrimento de quem permanece na experiência material. A compreensão da vida futura pode consolar, mas não nos torna indiferentes aos vínculos afetivos que construímos.
Maria nos ensina que podemos procurar o amparo divino sem disfarçar nossas lágrimas. E Jesus nos ensina que o amor verdadeiro não se afasta da dor: aproxima-se dela com compaixão.
3. O perfume de Betânia: quando o amor se transforma em ação
O terceiro episódio encontra-se em João 12:1–8.
“Pouco antes da Páscoa, Jesus participa de uma refeição em Betânia. Marta serve, Lázaro está entre os presentes e Maria unge os pés do Mestre com perfume de nardo puro, de grande valor, enxugando-os com os cabelos. Judas Iscariotes questiona o gesto, argumentando que o perfume poderia ter sido vendido e o dinheiro destinado aos pobres. Jesus, porém, defende Maria e relaciona a unção ao momento de sua morte e sepultamento, que se aproximava.“
O Evangelho Redivivo — Livro V situa esse episódio entre os acontecimentos finais do ministério de Jesus e propõe uma reflexão sobre os comportamentos humanos, o discernimento moral e a necessidade de aprender a distinguir o bem do mal. A unção é interpretada como uma manifestação de reverência, atenção, gratidão, amor e respeito a Jesus. É o verdadeiro reconhecimento do Messias.
Maria oferece algo precioso. Seu amor não permanece restrito ao sentimento ou à palavra: encontra expressão em uma atitude. O perfume derramado torna-se uma imagem poderosa do amor que não permanece apenas no campo das intenções. É uma oportunidade de refletirmos sobre aquilo que oferecemos de mais valioso à vida.
Nem sempre o amor se revela em grandes acontecimentos. Muitas vezes, manifesta-se em pequenos gestos que, justamente por serem simples, passam despercebidos: uma palavra de incentivo, um pedido sincero de perdão, um tempo dedicado a quem precisa, a paciência diante das limitações alheias, a disposição de ajudar sem esperar reconhecimento.
O perfume de Maria nos convida a examinar a qualidade da nossa entrega. A aproximar o que sentimos daquilo que fazemos. O amor se torna transformador quando deixa de ser apenas uma intenção e passa a orientar nossas escolhas.
Além das ações de Maria, a reação de Judas também nos permite aprender sobre nosso julgamentos das atitudes alheias. A crítica apresentada sob a aparência de uma preocupação legítima nos lembra que nem sempre nossas justificativas revelam nossas verdadeiras motivações.
Jesus fala a Judas, quando este questiona a unção com um óleo tão caro:
“Deixe‑a em paz. Ela guardou esse perfume para o dia da preparação do meu sepultamento. Pois os pobres vocês sempre terão com vocês, mas a mim nem sempre terão.” — João 12:7-8.
Por isso, o exame de consciência é indispensável. Isso não significa abandonar o discernimento ou desconsiderar a responsabilidade no uso dos recursos. Significa reconhecer que a avaliação moral exige honestidade interior. Nem sempre uma justificativa aparentemente correta revela a verdadeira intenção de quem a apresenta. O Evangelho nos chama à coerência. Não basta defender o bem em palavras; é necessário permitir que ele transforme nossas intenções e nosso comportamento.
Escutar, sentir, agir
Quando aproximamos os três episódios da vida de Maria de Betânia, percebemos um ensinamento que ultrapassa cada cena isoladamente. Primeiro, Maria escuta Jesus. Diante da morte de Lázaro, procura o Mestre e expressa sua dor. Na unção de Betânia, manifesta seu amor por meio de uma atitude concreta.
Escuta, sentimento e ação aparecem unidos.
Essa sequência nos oferece uma reflexão importante para a vivência espírita. Não basta conhecer os ensinamentos de Jesus; é necessário permitir que eles transformem nossa maneira de pensar, sentir e agir.
O exemplo de Maria de Betânia nos recorda que o aprendizado espiritual precisa ultrapassar as páginas dos livros e alcançar as relações humanas. Como reforça Alcíone no livro Renúncia (de Emmanuel, na psicografia de Francisco Candido Xavier), “o Evangelho de Jesus deve ser estudado, compreendido, sentido e vivido”.
Maria de Betânia não deixou longos discursos registrados nos Evangelhos. Sua mensagem chega até nós por meio de atitudes: ela escuta, chora, aproxima-se e oferece. Talvez seja justamente essa simplicidade que torne seu exemplo tão próximo de nossa realidade.
Diante de Jesus, Maria nos ensina a escutar com o coração aberto. Diante da dor, mostra-nos que podemos procurar amparo sem esconder nossas lágrimas. Diante da oportunidade de expressar amor, ensina-nos a transformar o sentimento em ação.
Que possamos, inspirados por seu exemplo, reservar espaço para a presença do Cristo em nossa intimidade e permitir que seus ensinamentos orientem nossas relações.
Que o Evangelho não seja apenas uma leitura em nossas mãos, mas uma presença viva em nossos pensamentos, sentimentos e atitudes.
Assista agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
* imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.
**Colaborou para esta publicação: Carol Maçaneiro.
