Entre os corações que acompanharam os passos de Jesus, há almas cuja grandeza não se revelou por grandes discursos ou posições de destaque, mas pela constância do gesto, pela renúncia sem alarde e pela absoluta fidelidade ao bem. Joana de Cusa, uma dessas luzes aparentemente discretas, cujo exemplo atravessa os séculos como um convite à reflexão profunda sobre o nosso próprio caminhar espiritual.
Seu nome aparece no Evangelho de maneira breve. O Evangelista Lucas registra:
E andavam com ele os doze, e algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes, e Susana.
— Evangelho de Lucas, 8:1-3.
A condição social de Joana poderia lhe oferecer conforto, influência e privilégios. Enquanto seu esposo buscava posições no poder terreno, seu coração encontrou uma riqueza maior: a oportunidade de servir à causa do Cristo.
O verdadeiro divisor de águas em sua jornada foi o encontro com os ensinamentos de Jesus. No Evangelho, ela encontrou uma luz que não apenas sara o corpo, mas regenera o espírito. Diante do dilema de abandonar os seus deveres para seguir o Mestre ou permanecer no ambiente palaciano, Joana recebeu de Jesus a orientação mais profunda: servir onde estivesse. Ele ensinou que o verdadeiro discípulo não precisa dos mantos da pregação pública para ser uma testemunha viva da fé, mas sim de um coração humilde e resignado.
Essa orientação de Jesus encontra uma expressão no relato de Joana de Cusa apresentado no livro Boa Nova, de Humberto de Campos, pela psicografia de Chico Xavier:
Joana possuía verdadeira fé; contudo, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. […] A nobre dama procurou o Messias, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre […]. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.
Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:
— Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; Eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. (…) Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. (…)
— Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o Céu e para o vosso Reino?
O Cristo sorriu serenamente e retrucou:
— Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação ou da inconstância do espírito? Quanto à imposição das ideias, por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? A sabedoria celeste não extermina as paixões: transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o Céu, nos grandes princípios da redenção.
Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!… Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o Céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!..
Joana de Cusa experimentava um brando alívio no coração. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as últimas palavras:
— Vai, filha!… Sê fiel!
— Livro Boa Nova, capítulo 15 – Joana de Cusa.
Assim, Joana retornou ao lar disposta a viver sua fé na intimidade e no silêncio, servindo aos seus com dedicação renovada e auxiliando discretamente a comunidade dos seguidores de Jesus com os próprios recursos.
1. Os Caminhos para a fé
Essa escolha revela algo precioso sobre a natureza da fé verdadeira: ela não exige holofotes. Joana não é lembrada por palavras grandiosas ou por milagres realizados. É lembrada por permanecer. Por doar do que tinha. Por não se afastar quando o caminho se tornou estreito e perigoso. Enquanto tantos hesitavam entre o conforto do palácio e a incerteza da estrada, ela optou pela estrada e, com isso, ensinou que a grandeza espiritual muitas vezes se constrói no anonimato do serviço cotidiano.
Mais tarde, quando as vicissitudes da vida a privaram dos bens materiais e das posições sociais, Joana permaneceu inabalável.
Seu companheiro torturado pelas ideias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, voltou ao Plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Joana, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Cheia de alegria sincera, a viúva de Cusa esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão.
— Livro Boa Nova, capítulo 15 – Joana de Cusa.
2. A certeza do caminho
No fim de seus dias na Terra, diante do martírio por amor a Cristo, ela deu o testemunho supremo de abnegação, perdoando os seus algozes com um sorriso de amor e esperança.
No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho. Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.
— Abjura!… — exclama um executor das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio.
A antiga discípula do Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas: — “Repudia a Jesus, minha mãe!… Não vês que nos perdemos?! Abjura!… por mim, que sou teu filho!…”
Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.
— Abjura!… Abjura!
Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras… Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: — “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cusa contemplou a primeira vítima ensanguentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:
— Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitórias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!
A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos lhe incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. Joana de Cusa contemplou com serenidade a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:
— O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? — perguntou um dos verdugos.
A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar:
— Não apenas a morrer, mas também a vos amar!…
Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível:
— Joana, tem bom ânimo!… Eu aqui estou!…
— Livro Boa Nova, capítulo 15 – Joana de Cusa.
3. Vivências em Fé
Há relatos, através de psicografias de Divaldo Pereira Franco que atribuem ao espírito Joanna de Ângelis, como uma das encarnações de Joana de Cusa. Se assim for, compreendemos melhor por que a doutrina de Joanna de Ângelis, em nossos dias, insiste tanto na autodescoberta silenciosa, na renúncia sem alarde, serviço anônimo e dedicação ativa e no amor que se expressa em atos, não em vaidades. São ecos de uma alma que, séculos atrás, já havia aprendido a servir sem precisar ser vista.
A história traz que Joana de Cusa reencarnara como Santa Clara de Assis (1194-1253), seguidora de São Francisco de Assis e fundadora da Ordem das Clarissas.
No México, teria nascido Juana de Asbaje (1651-1695), a poetiza que adotou o pseudônimo Juana Inés de La Cruz.
Sua derradeira passagem na Terra ocorreria no Brasil, como a madre Joanna Angélica de Jesus (1761-1822), assassinada enquanto defendia o Convento da Lapa, em Salvador, contra a invasão dos portugueses em meio ao movimento conhecido como Independência da Bahia.
4. Um convite de evolução
A lembrança de Joana de Cusa é um convite a todos nós que buscamos uma jornada de aperfeiçoamento espiritual. Convite a examinar o que temos feito dos recursos — materiais, morais e intelectuais — que a Providência Divina nos confia. O quanto estamos dispostos a nos colocar a serviço do bem?
Quantas vezes escolhemos a segurança do palácio em vez da estrada incerta ao lado daquilo que sabemos ser justo e verdadeiro?
Não é preciso viver ao lado de reis nem caminhar pela Galileia para seguir seu exemplo. Basta sustentar com fidelidade a obra do bem onde quer que estejamos plantados — na família, no trabalho, no centro espírita, na simples gentileza do dia. Joana, nos ensina, que a grandeza, não está no palco, mas na perseverança de quem serve sem exigir reconhecimento.
Conclusão
A santificação não exige grandes gestos heroicos aos olhos do mundo, mas a transformação diária da nossa atitude dentro do próprio lar e do nosso ambiente de trabalho. O desapego às glórias efêmeras do mundo e a confiança inabalável em Deus nos sustentam mesmo quando enfrentamos as mais difíceis provações.
Seguir a Cristo compreendendo que o amor é a única moeda que realmente possui valor perante a eternidade.
A história de Joana de Cusa nos lembra que a verdadeira fé e a transformação interior não exigem o abandono do mundo, mas sim a iluminação do lugar onde fomos colocados.
Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
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** Colaborou para esta publicação: Carol Maçaneiro.
* Imagem gerada por IA – ChatGPT