Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.
Com poucas palavras, Paulo de Tarso resumiu, ao final de sua existência, uma das mais profundas propostas de transformação trazidas pelo Cristianismo.
A frase está na segunda carta a Timóteo e serviu de ponto de partida para a palestra de Otávio Ernesto na Associação Espírita Fé e Caridade. A reflexão nos convida a perceber que nossa história, individual e coletiva, sempre esteve repleta de combates. Mas nem todo combate é aquele que nos faz evoluir.
Há o combate contra o outro — e há o combate contra nós mesmos. E talvez seja justamente essa distinção que nos ajude a compreender o caminho percorrido por Paulo de Tarso e, principalmente, aquilo que ainda somos chamados a realizar em nossa própria intimidade.
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”
— Paulo de Tarso, 2 Timóteo 4:7.
Somos especialistas em combater
Quando olhamos para a história da humanidade, encontramos uma sucessão de disputas. Nações lutaram contra nações. Povos dominaram outros povos. Houve escravidão, guerras religiosas, perseguições políticas, conflitos por território, riqueza e poder. E, embora hoje muitas dessas batalhas não ocorram com armas físicas, o espírito do combate continua presente.
Combatemos nos grupos políticos.
Combatemos nas divergências religiosas.
Combatemos nas torcidas esportivas.
Combatemos no trabalho, quando transformamos um colega ou concorrente em adversário a ser derrotado.
Combatemos dentro das famílias.
E combatemos até no campo das ideias, quando nosso objetivo deixa de ser compreender ou dialogar e passa a ser simplesmente vencer.
O problema não está na divergência. Pensar diferente faz parte da experiência humana. O problema começa quando transformamos aquele que pensa diferente em inimigo. Ao aprofundarmos essa reflexão, encontramos uma raiz conhecida dos estudantes da Doutrina Espírita.
Kardec pergunta, em O Livro dos Espíritos:
“Qual o maior obstáculo ao progresso?”
“O orgulho e o egoísmo.”
— O Livro dos Espíritos, questão 785.
O egoísmo, entendido como o culto excessivo ao próprio “eu”, está no fundo de grande parte dos nossos conflitos. “Eu preciso estar certo, eu mereço mais. Meu grupo é melhor. Minha crença é superior. Minha posição deve prevalecer. Meu interesse vem primeiro.”
Quando essas disposições individuais se somam, formamos também egoísmos coletivos — de famílias, grupos, instituições, povos e nações. E continuamos combatendo.
O combate e o bom combate
Na lição 148 de Palavras de Vida Eterna, intitulada “No bom combate”, Emmanuel parte justamente da frase de Paulo para distinguir duas formas muito diferentes de luta.
No combate comum, procuramos o inimigo fora de nós. Criamos estratégias. Defendemos posições. Queremos vencer o adversário.
Emmanuel adverte que, muitas vezes, chegamos até a comemorar a derrota do outro sem perceber que, espiritualmente, estamos derrotando a nós mesmos.
Já no bom combate, o campo de batalha muda completamente. O adversário deixa de ser o outro. Passa a ser aquilo que existe dentro de nós e que ainda nos distancia das leis de amor. A intolerância. O orgulho. A vaidade. A inveja. O ciúme. O desejo de vingança. A necessidade de domínio. O egoísmo.
Emmanuel sintetiza:
“O bom combate liberta-nos o espírito para a ascensão aos Planos superiores.”
— Emmanuel, Palavras de Vida Eterna, capítulo 148, “No bom combate”.
É uma mudança radical de perspectiva.
Em vez de perguntar “como posso vencer essa pessoa?”, começamos a perguntar:
Por que essa pessoa consegue despertar tanta raiva em mim?
Em vez de querer eliminar o opositor, buscamos identificar aquilo que o conflito revelou em nós. O combate externo procura derrotar alguém. O bom combate procura transformar alguém: nós mesmos.
Quando o outro nos mostra aquilo que ainda precisamos transformar
Uma das propostas mais práticas da palestra é observar nossos próprios sentimentos como pistas. Se qualquer contrariedade nos tira do equilíbrio, talvez ainda exista intolerância em nós.
Se sentimos inveja daquilo que alguém possui, conquistou ou consegue fazer, podemos perguntar que parte de nosso ego se sente diminuída diante da realização do outro.
Se sentimos ciúme, talvez ainda estejamos confundindo amor com posse.
Se uma crítica ou discordância nos parece uma enorme humilhação, talvez nossa vaidade ainda esteja exigindo reconhecimento.
Isso não significa nos condenarmos. Significa conhecermo-nos.
Cada impulso para combater o outro pode se transformar em uma oportunidade de descobrir um ponto de trabalho interior. É uma inversão poderosa:
Aquilo que provoca nosso combate exterior pode indicar onde precisa começar nosso bom combate interior.
Paulo de Tarso: de perseguidor a servidor
Poucas trajetórias ilustram essa transformação tão intensamente quanto a de Paulo de Tarso. Antes do encontro com Jesus às portas de Damasco, Saulo era um perseguidor convicto dos primeiros cristãos. Considerava aquele movimento uma ameaça ao conjunto de valores que defendia.
Seu combate estava fora dele. O inimigo eram os seguidores de Jesus. Era preciso silenciá-los, persegui-los, derrotá-los. Mais tarde, já transformado, Paulo recordaria seu próprio passado em uma carta a Timóteo:
“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna.”
— 1 Timóteo 1:15-16.
Paulo não apaga seu passado. Não finge que não errou. Não procura justificar aquilo que fez. Mas também não permanece paralisado pela culpa. Ele transforma o reconhecimento do erro em possibilidade de renovação.
Essa talvez seja uma das mensagens mais consoladoras de sua história: não somos obrigados a continuar sendo aquilo que fomos.
A estrada de Damasco foi apenas o começo
É comum imaginarmos o encontro de Paulo com Jesus como uma transformação instantânea. Mas a tomada de consciência é apenas o início. Perceber que estamos errados não significa que já conseguimos mudar.
A trajetória apresentada na literatura espírita mostra Paulo passando por um longo processo de reconstrução. O homem poderoso, respeitado e temido precisaria aprender a conviver com a simplicidade, o trabalho, a incompreensão e a rejeição.
Precisaria abandonar antigas certezas. Despir-se do orgulho de raça, de posição social e de autoridade religiosa. Aprender a servir sem exigir reconhecimento. A grande batalha de Paulo deixou de acontecer contra os cristãos e passou a acontecer dentro dele.
Saulo havia vivido o combate. Paulo passaria a viver o bom combate.
“Já não sou eu quem vive”
Essa transformação aparece em outra conhecida frase de Paulo:
“Já não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim.”
— Gálatas 2:20.
Não significa que Paulo tenha perdido sua individualidade. Significa que os valores ensinados por Jesus passaram progressivamente a orientar suas escolhas. Aquilo que antes era conduzido pelo orgulho passa a buscar a humildade. Aquilo que buscava domínio aprende a servir. Aquilo que perseguia aprende a acolher. Aquilo que combatia passa a amar.
O Evangelho deixa de ser algo que Paulo conhece intelectualmente e passa a ser algo que procura viver. Essa talvez seja uma das diferenças fundamentais entre conhecer o Cristianismo e cristianizar-se.
Uma advertência que atravessa os séculos
Em sua segunda carta a Timóteo, Paulo faz ainda uma descrição impressionante dos desafios morais que enxergava entre os homens:
“Nos últimos dias haverá tempos difíceis, porque os homens serão egoístas, avarentos, orgulhosos, vaidosos, xingadores, ingratos, desobedientes aos pais e não terão respeito à religião, não terão amor para com os outros e serão duros, caluniadores, violentos e inimigos do bem. Serão traidores, atrevidos e cheios de orgulho. Amarão mais aos prazeres do que a Deus. Terão a forma exterior da nossa religião, mas rejeitarão o seu verdadeiro poder.”
— 2 Timóteo 3:1-5, conforme a tradução utilizada na palestra.
É difícil ler essa passagem sem perceber sua atualidade. Mas seu objetivo não deve ser nos estimular a procurar essas características nos outros. Seria novamente o velho combate. A proposta do bom combate nos pede justamente o contrário:
Onde essas características ainda aparecem em mim?
Onde sou egoísta? Onde ainda busco reconhecimento? Onde ajo movido pela vaidade? Onde minha prática está distante daquilo que afirmo acreditar?
É sempre muito mais fácil diagnosticar a humanidade do que diagnosticar a própria consciência.
A grande vitória de Paulo
Quando Paulo escreve sua última carta a Timóteo, sua situação exterior aparentemente não tem nada de vitoriosa.
Está preso. Envelhecido. Perseguido. E aproxima-se da morte.
Sob os critérios do mundo, poderia parecer derrotado. Mas sua avaliação é completamente diferente:
“Quanto a mim, a hora de ser sacrificado já chegou e já é o tempo de deixar esta vida. Combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé.”
— 2 Timóteo 4:6-7, conforme citado na palestra.
Sua maior vitória não são as comunidades cristãs que ajudou a organizar. Não são as viagens. Não são as cartas. Não é a extensão geográfica de sua pregação.
Sua grande conquista é outra: o homem em que conseguiu se transformar.
Como resume Emmanuel ao comentar sua trajetória, o antigo conselheiro do Sinédrio, aparentemente vencido aos olhos do mundo, deixou a existência como verdadeiro triunfador.
A vitória estava dentro dele.
Ferramentas não são o objetivo da existência
A palestra nos leva então a uma questão essencial: o que consideramos uma vida bem-sucedida?
Frequentemente imaginamos que precisamos deixar uma grande marca no mundo. Construir patrimônio. Alcançar cargos. Acumular títulos. Ser reconhecidos. Realizar grandes obras.
Mas, à luz da vida espiritual, tudo isso são ferramentas. Riqueza é ferramenta. Inteligência é ferramenta. Saúde é ferramenta. Influência é ferramenta. Beleza é ferramenta. Oportunidades profissionais são ferramentas.
A pergunta decisiva não será apenas o que acumulamos ou construímos com elas, mas no que nos transformamos ao utilizá-las.
Estamos mais tolerantes? Mais pacientes? Mais mansos? Mais capazes de perdoar? Mais sensíveis à necessidade do próximo? Aprendemos a amar melhor?
Se transformamos a ferramenta no objetivo, perdemos de vista a finalidade da experiência.
“Senhor, que queres que eu faça?”
Há ainda uma pergunta associada à experiência de Paulo na estrada de Damasco que oferece uma síntese preciosa para nossa própria caminhada:
“Senhor, que queres que eu faça?”
Ela é muito diferente de:
“Senhor, o que podes fazer por mim?”
Quando atravessamos uma dificuldade, nossa primeira reação frequentemente é pedir que Deus modifique a situação. Retire a dor. Resolva o problema. Afaste aquela pessoa. Elimine o obstáculo.
Mas o bom combate talvez comece quando modificamos a pergunta:
O que essa experiência pede de mim?
Que qualidade preciso desenvolver? Que comportamento preciso abandonar? O que posso reparar? Onde preciso ser mais humilde? Como posso servir melhor? O que Jesus espera que eu faça com aquilo que estou vivendo? A mudança da pergunta já é uma mudança de posição diante da vida.
Qual é o nosso bom combate?
Não precisamos enfrentar as mesmas experiências de Paulo de Tarso. Cada um de nós tem seu próprio campo de trabalho.
Para alguns, o bom combate pode ser conter a irritação dentro de casa. Para outros, abandonar uma mágoa antiga.
Pode ser vencer o impulso de falar mal de alguém. Pode ser aprender a ouvir uma opinião contrária sem transformar a conversa em guerra. Pode ser diminuir a necessidade de controle. Pode ser superar o ciúme. Pode ser trabalhar a inveja. Pode ser reconhecer um erro e pedir perdão.
São batalhas silenciosas. Não rendem monumentos. Quase nunca recebem aplausos. Mas são essas pequenas vitórias íntimas que transformam o Espírito.
Acabar a carreira e guardar a fé
Paulo não iniciou sua trajetória como o homem que pronunciaria:
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”
Ele precisou transformar-se para chegar até ali. E talvez seja exatamente por isso que sua história permaneça tão poderosa. Se olhássemos apenas para Saulo, veríamos intolerância, perseguição e orgulho. Olhando para Paulo, vemos serviço, coragem, fidelidade e transformação. Entre os dois existe o bom combate.
Também não precisamos estar prontos hoje. Precisamos estar dispostos. Dispostos a olhar para dentro quando nossa tendência ainda é procurar culpados fora. Dispostos a transformar cada conflito numa oportunidade de autoconhecimento. Dispostos a reconhecer que os maiores inimigos que precisamos vencer talvez não estejam diante de nós, mas dentro de nós. E, principalmente, dispostos a trocar a pergunta:
“Quem preciso derrotar?”
por outra muito mais profunda:
“Senhor, que queres que eu faça?”
Talvez seja assim, passo a passo, que também possamos chegar ao final de nossa própria jornada e dizer, com serenidade:
Combati o bom combate. Completei a carreira. Guardei a fé.
Assista agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
**imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.