Entre os diversos relatos apresentados na segunda parte da obra O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, há comunicações que nos comovem profundamente e, ao mesmo tempo, nos convidam a reflexões maduras sobre a justiça divina. Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, o trabalhador da casa Paulo Allebrandt, escolheu analisar um desses relatos em particular: “O Pai e o Conscrito”. O caso que ilustra, com grande sensibilidade, os limites do amor humano quando não está plenamente iluminado pela confiança em Deus.
A obra e seu contexto
Publicado em 1865, O Céu e o Inferno é uma das cinco obras básicas da Codificação Espírita.
Sua estrutura divide-se em duas partes complementares:
- A primeira, de caráter doutrinário, examina comparativamente as concepções religiosas sobre a vida após a morte;
- A segunda, prática e experimental, reúne comunicações de Espíritos em diferentes condições — felizes, sofredores, criminosos, suicidas — revelando os efeitos morais de suas escolhas.
É nessa segunda parte que encontramos o relato que ora estudamos.
A narrativa: o pai e o conscrito
O texto apresenta a história de um comerciante parisiense, homem respeitado, pai de família, que vê seu filho ser convocado para o serviço militar.
O termo conscrito designa justamente o jovem recrutado para o exército — e o contexto histórico é a Segunda Guerra de Independência Italiana (1859), na qual a França, sob Napoleão III, participou ao lado do Reino do Piemonte-Sardenha contra o Império Austríaco.
Diante da impossibilidade de livrar o filho da convocação, o pai toma uma decisão extrema: tira a própria vida, acreditando que, assim, o jovem seria dispensado do serviço militar como filho único de viúva, conforme a legislação da época.
Um ano após sua morte, esse Espírito é evocado na Sociedade Espírita de Paris, a pedido de alguém que o conhecera em vida.
A evocação e o sofrimento do Espírito
Antes da evocação, Kardec consulta o Espírito São Luís, orientador espiritual dos trabalhos, que responde de forma significativa:
“Sim, e ele ganhará com isso, porque ficará mais aliviado.”
Esse ensinamento dialoga diretamente com a questão 320 de O Livro dos Espíritos, na qual os Espíritos afirmam que a lembrança e a prece dos encarnados podem trazer alívio aos desencarnados sofredores.
Ao manifestar-se, o Espírito expressa dor, lucidez e arrependimento logo em suas primeiras palavras:
“Oh! obrigado! Sofro muito, mas… é justo. Contudo, Ele me perdoará.”
O texto observa ainda que o Espírito escreve com grande dificuldade, revelando, pelo esforço físico-moral da comunicação, o estado de perturbação em que se encontra.
A dificuldade em escrever o nome de Deus
Um dos momentos mais tocantes do relato ocorre quando o Espírito tenta escrever a palavra “Deus” e não consegue concluir. Questionado sobre isso, responde:
“Sou indigno de escrevê-la.”
Esse detalhe revela um profundo sentimento de consciência moral. Não há imposição externa: é o próprio Espírito que, reconhecendo sua falta, sente-se indigno de pronunciar o Nome Divino.
Amor paternal e responsabilidade espiritual
Quando interrogado sobre os motivos do suicídio, o Espírito declara:
“Fui completamente inspirado pelo amor paterno, porém, mal inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada.”
Aqui está o cerne do ensinamento.
O amor paterno é um sentimento nobre, mas, quando desvinculado da confiança na Providência Divina e da compreensão da vida espiritual, pode conduzir a decisões graves.
Como observa Allan Kardec:
“À primeira vista, como ato de abnegação, este suicídio poder-se-ia considerar desculpável; efetivamente assim é, mas não de modo absoluto.”
A intenção atenua a falta, mas não a anula.
A natureza do sofrimento após o suicídio
O Espírito descreve seu padecimento de forma esclarecedora:
“Sofro duplamente, na alma e no corpo; e sofro neste último, conquanto o não possua, como sofre o operado de um membro amputado.”
Essa explicação ajuda a compreender o sofrimento dos Espíritos suicidas, muitas vezes ainda ligados às sensações do corpo físico pelo perispírito.
Questionado sobre a duração desse sofrimento, responde:
“Não lhes entrevejo o termo, mas tenho certeza de que ele existe, o que é um alívio para mim.”
Não há penas eternas — há justiça, educação espiritual e esperança.
Provações, escolhas e confiança em Deus
Kardec ressalta ainda que o ato do pai pode ter interferido nas provas escolhidas pelo próprio filho antes da reencarnação, conforme ensinam as questões 258 e 259 de O Livro dos Espíritos.
Além disso, lembra-nos que nada ocorre sem a permissão divina. As leis morais, especialmente a Lei de Destruição (questão 737), esclarecem que mesmo acontecimentos dolorosos, como as guerras, podem acelerar o progresso coletivo.
A própria guerra citada no relato, apesar de trágica, foi responsável por avanços humanitários significativos, como o surgimento da Cruz Vermelha e do Direito Internacional Humanitário.
O esforço do arrependimento
Em um dos momentos mais emocionantes da comunicação, após ser incentivado por Kardec, o Espírito consegue, com grande esforço, escrever finalmente:
“Deus é muito bom.”
Essa frase sintetiza toda a experiência espiritual vivida. Mesmo em sofrimento, o Espírito reconhece a bondade divina, fruto de um arrependimento sincero e ativo.
A falta de confiança e a justiça divina
Consultado, o Espírito São Luís conclui:
“Esse Espírito sofre justamente, pois não confiou em Deus, o que é uma falta sempre punível; (…) Deus, que vê o fundo dos corações, e que é justo, não o pune senão segundo suas obras.”
A lição é clara: boas intenções não substituem a confiança consciente nos desígnios superiores.
Esse entendimento se harmoniza com a questão 951 de O Livro dos Espíritos, que ensina que o sacrifício da própria vida só é meritório em circunstâncias extremas e inevitáveis — o que não ocorria neste caso.
O verdadeiro amor paternal
O verdadeiro amor não é o que elimina todas as dificuldades, mas o que prepara espiritualmente para enfrentá-las.
A questão 208 de O Livro dos Espíritos reforça que os pais têm por missão desenvolver moralmente seus filhos, contribuindo para o progresso espiritual deles.
Reflexões finais
“O Pai e o Conscrito” nos ensina que:
- O amor humano precisa ser iluminado pela fé raciocinada;
- A confiança em Deus é parte essencial da maturidade espiritual;
- Nenhuma dor é eterna, e todos estamos destinados ao bem;
- O arrependimento sincero abre sempre novos caminhos de regeneração.
Que saibamos confiar mais na Providência Divina e lembrar, mesmo nos momentos difíceis, da frase que encerra esse relato com tanta força e esperança:
“Deus é muito bom.”
Ouça agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
* Colaborou para esta publicação: Paulo Allebrandt.
** Imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.