Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, o expositor Rudnei Martins nos convidou a refletir sobre um tema que costuma despertar muitas perguntas: o esquecimento das existências passadas.
Logo no início, ele fez uma definição importante: por que “existências” e não “vidas” passadas? Porque, à luz da Doutrina Espírita, “o espírito é imortal” — portanto, temos uma vida só, com múltiplas existências corporais. Como ele sintetizou:
“Nós esquecemos das nossas existências passadas e não das nossas vidas passadas.”
— Rudnei Martins.
A partir daí, a palestra seguiu como um estudo: reencarnação como lei natural, a utilidade do “véu” sobre o passado, e como esse mecanismo — longe de ser punição — é, sobretudo, proteção e oportunidade.
Reencarnação: escola do progresso
A reencarnação é lei natural, instrumento de progresso e aprendizado. O palestrante recordou que cada um de nós já viveu na Terra inúmeras vezes, em épocas e contextos diferentes, somando experiências que não se perdem: “com as sucessivas encarnações… [há] uma somatória de experiências e lições que nós nunca mais esqueceremos,” disse Rudnei
Ou seja: o esquecimento não apaga conquistas — apenas impede que as lembranças, ainda pesadas para nós, nos paralisem ou nos desviem do que importa agora.
Por que não lembramos? A pergunta que sempre volta
A dúvida é comum — e o palestrante a formulou do jeito que muitos de nós já ouvimos (ou já pensamos):
- “Por que será que… não era melhor pra gente entender…?”
- “Como é que a gente pode ser responsável por atos que nós nem lembramos?”
A resposta está organizada nas obras da Codificação, especialmente em O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos.
No Evangelho (cap. V, item 11), ele citou a ideia central: o Espírito muitas vezes renasce no mesmo meio e com as mesmas pessoas para reparar o mal que tenha feito — e, se reconhecesse de imediato antigos desafetos, ressurgiriam rancores. Em suas palavras, isso evitaria que o ódio “despertasse outra vez”.
Essa lógica conversa diretamente com O Livro dos Espíritos, questão 392, que ele também trouxe para o centro do estudo. Kardec pergunta por que o Espírito encarnado perde as lembranças do passado — e a resposta aponta que o homem “não pode, nem deve saber de tudo”, e que sem esse “véu” seríamos “facilmente ofuscados”. (LE, q. 392)
O palestrante traduziu isso numa imagem simples e atual: lembrar de tudo, para muitos de nós, seria peso demais para carregar — e travaria justamente o processo que a reencarnação busca favorecer: reconstrução, trabalho e avanço.
O esquecimento como dádiva: proteção psíquica e recomeço real
O processo de esquecimento é uma dádiva divina. Rudnei explicou que, em geral, no passado fomos “muito piores” do que hoje — e que, nesta encarnação, somos “a nossa melhor versão” até aqui. Ainda assim, carregamos tendências (orgulho, egoísmo, ciúme, violência, indiferença) que denunciam o que nos falta corrigir.
Por isso, o esquecimento funciona como uma espécie de “proteção” para Espíritos que ainda não têm estrutura íntima para encarar, sem perturbação, tudo o que fizeram e sofreram. Ele resumiu com clareza:
“Ao renascer, despertamos… com possibilidades de reescrever a nossa história.”
— Rudnei Martins.
E deixou uma bonita metáfora: somos como um livro em andamento — capítulos já escritos, e cada nova existência como um novo capítulo a ser escrito com mais consciência.
As marcas do passado permanecem
Esquecer não é apagar. A palestra reforçou uma ideia decisiva: as lembranças não se perdem, apenas ficam veladas — e reaparecem, de modo sutil, nos nossos impulsos, inclinações e reflexos morais.
Como disse o palestrante, essas marcas surgem “nos nossos gestos, nos nossos atos e nas nossas palavras”; e é aí que devemos concentrar atenção, porque é aí que está o trabalho real de reforma íntima.
Esse ponto é muito educativo: em vez de buscar “quem fui”, olhar quem sou (e como reajo) é o caminho mais seguro para identificar o que precisa ser transformado.
Família, infância e misericórdia: por que Deus faz assim?
Outro trecho importante foi a reflexão sobre a infância. O palestrante lembrou que a criança precisa de cuidado, ternura e acolhimento — e perguntou o que aconteceria se os pais vissem com clareza todo o passado do Espírito reencarnante.
Ele citou o ensino de Kardec sobre os primeiros anos, quando o Espírito está com as ideias do “fundo do caráter” ainda adormecidas e, por isso, mais maleável, facilitando a tarefa educativa dos pais.
A conclusão é consoladora: o esquecimento também protege os vínculos, favorece o amor, a educação e a reeducação — sem as sombras do passado se impondo como sentença.
Quando lembramos?
Se o esquecimento é temporário, quando se recupera a memória? Encarnados, o passado repercute sobretudo como tendência e intuição; e que, após a desencarnação, as lembranças úteis e suportáveis vão sendo retomadas gradualmente, conforme a condição psicológica do Espírito.
Ou seja: a Providência não nos expõe ao que não conseguimos sustentar — nem aqui, nem depois.
“Olha teu presente”
Na conclusão, o palestrante conduziu a reflexão para o ponto mais prático e transformador: o presente como espelho do passado e alavanca do futuro.
E encerrou com uma frase forte, apresentada como orientação para levarmos para casa:
“Se queres saber como foi teu passado, olha o teu presente.”
— Rudnei Martins.
Mais do que curiosidade sobre outras existências, a proposta do estudo é esta: usar a vida de hoje como laboratório de consciência, observando tendências, escolhendo o bem com liberdade, e aceitando que o esquecimento é, muitas vezes, a forma de Deus nos dar um recomeço possível.
Assista agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação
**imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.