As etapas das Bem-aventuranças

As bem-aventuranças formam uma escada de ascensão. Ninguém chega à pureza de coração sem percorrer os degraus anteriores.

Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, a trabalhadora da casa Julia Fertig refletiu sobre o tema “As Bem-aventuranças”, inspirada em uma exposição de Jorge Elarrat sobre o mesmo assunto.

Enquanto esteve conosco na Terra, Jesus nos deixou inúmeras lições e aprendizados que continuam ecoando através dos séculos. Um dos momentos mais marcantes de seu ensinamento ocorreu no chamado Sermão do Monte, quando Ele subiu ao topo de um monte, rodeado por uma multidão que o ouvia com atenção.

Ali, iniciou um dos discursos mais belos e profundos da história, abrindo suas palavras com a expressão “Bem-aventurados…”. Essa introdução deu nome a essa parte de seus ensinamentos, as Bem-aventuranças, que sintetizam o caminho espiritual que conduz à verdadeira felicidade.

“Bem-aventurados” significa, sob o aspecto espiritual, felizes são. Cada bem-aventurança representa uma etapa de desenvolvimento para nós, promovendo uma proposta de mudança interior e um caminho de ascensão espiritual.

O homem diante de si mesmo

Jorge Elarrat, em sua palestra, didaticamente categoriza as 3 primeiras bem-aventuranças sendo referentes a relação do homem com ele mesmo.

1. Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus

Aqui Jesus destaca a beleza da simplicidade. Jesus inverte a lógica do mundo, em vez de exaltar o poder, a força e a guerra, ele valoriza os pequenos, frágeis e singelos, aqueles que reconhecem suas próprias falhas.

Quando admitimos nossos erros, mostramos que estamos prontos para mudar. Diferente dos que se apegam às certezas e resistem à transformação, os pobres de espírito se despem da soberba e da crença de serem melhores que os outros.

Assim, os pobres de espírito são todos aqueles que se reconhecem pequenos, humildes.

Humildade é o primeiro passo rumo ao Reino dos Céus.

2. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados

Depois de reconhecer a nossa própria fragilidade, o próximo passo natural é lamentar essas imperfeições. O autoconhecimento nos revela nossas limitações e, ao encará-las, sentimos desconforto. “Chorar” aqui significa reconhecer as dificuldades, seja com os outros ou conosco mesmos.

Por isso que muitas vezes não queremos encarar o processo de autoconhecimento, porque é desconfortável, mostra nossas fraquezas.

Aqueles que choram compreenderam que não são os espíritos mais elevados da Terra, mas sabem que essa pequenez não é eterna. O consolo vem da certeza de que superaremos nossas limitações e nos levantaremos espiritualmente.

3. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra

Após o autoconhecimento e o reconhecimento da dor, vem a aceitação. Aceitamos nossas falhas, a vida que temos e fazemos as pazes conosco e nos perdoamos. Surge então uma serenidade interior, a mansidão, fruto da pacificação das dores íntimas.

Assim, completamos o primeiro ciclo das Bem-aventuranças: nos descobrimos pequenos, reconhecemos e lamentamos nossas fraquezas e as aceitamos. Cumprindo os primeiros passos para a mudança.

O homem diante do outro

Agora, pacificados, estamos prontos para nos relacionar com o próximo. E é esse relacionamento com o próximo que categoriza as próximas duas Bem-aventuranças.

4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos

Quando começamos a transformação interior, se for verdadeiro, sentiremos o desejo de corrigir nossos erros e equívocos. É uma fome de justiça divina, não de vingança. O processo de autoconhecimento nos leva a revisitar o passado, refletir, e buscar reparação.

E nesse processo de reparação, entra o perdão. Nem sempre será possível pedir perdão diretamente para quem gostaríamos, muitas vezes essa pessoa não se encontra mais em caminho conosco. Mas, mesmo assim podemos pedir perdão de outra forma. Podemos agir de maneira diferente perante a vida, mostrando que algo em nós mudou.

O processo de autoconhecimento e reparação, é um trabalho para a vida toda, não apenas para uma existência. Precisamos ter paciência para conosco.

5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia

Felizes são os que, além de pedir perdão, sabem concedê-lo. Perdoar não anula a culpa do outro, mas nos liberta do vínculo com o agressor. Quando guardamos ódio, mantemos uma ligação espiritual com quem nos feriu.

A misericórdia que Jesus nos apresenta, nos convida a romper esse elo, libertando-nos para seguir em paz.

Depois de pedirmos perdão e concedermos o perdão, estaremos próximos para a próxima Bem-aventurança.

6. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus

As bem-aventuranças formam uma escada de ascensão. Ninguém chega à pureza de coração sem percorrer os degraus anteriores. Após o autoconhecimento, o arrependimento e o perdão, alcançamos uma paz interior. Paz que só é possível se sentida e vivenciada com Jesus e seu evangelho.

Quando perdoamos, sentimos como se tirássemos um peso das costas. A reconciliação nos faz bem. Fomos criados para amar. Não amar nos adoece.

Ver a Deus” não significa vê-lo com os olhos, porque Deus é imaterial e não tem forma humana. Significa perceber Sua presença em tudo: na natureza, nas cores de um pássaro, no brilho de um riacho, na grandiosidade de uma montanha.

Como ensinou Emmanuel:

“Uma superfície limpa é capaz de refletir a luz. Quanto mais límpida, mais nítido é o reflexo. Da mesma forma, um coração puro reflete a luz divina.”

O homem diante do mundo

7. Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus

Após o trabalho íntimo de transformação e a vivência do perdão, o discípulo do Cristo é naturalmente convidado a irradiar para fora a paz que começou a construir em si mesmo. O pacificador não é aquele que apenas evita conflitos, mas o que se dispõe a semear a concórdia, a compreensão e o equilíbrio onde ainda imperam a discórdia e a intolerância. Ele compreende que a paz verdadeira não nasce da imposição, mas do exemplo silencioso e firme do bem.

Ser pacificador exige maturidade espiritual. Muitas vezes, promover a paz significa renunciar à razão pessoal, conter impulsos de reação, ouvir com empatia e agir com prudência. É um exercício contínuo de vigilância e amor, pois a paz que Jesus propõe não é passiva, mas ativa, construtiva e perseverante. O pacificador trabalha pela harmonia nas pequenas relações do cotidiano — no lar, no ambiente de trabalho, na convivência social — entendendo que é nesses espaços que o Reino de Deus começa a se expressar.

Ao agir assim, o espírito demonstra afinidade com as Leis Divinas, tornando-se verdadeiramente “filho de Deus”, não por título, mas por vivência. A filiação divina se revela na capacidade de amar, reconciliar e unir, mesmo quando o ambiente ainda não favorece essa postura. É a paz vivida que autentica o progresso moral alcançado até aqui na escada das Bem-aventuranças.

8. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus

A última bem-aventurança encerra o ciclo mostrando que a fidelidade ao bem nem sempre será compreendida ou aceita pelo mundo. Quando o espírito decide viver segundo a justiça divina — que se fundamenta no amor, na verdade e na retidão moral — pode encontrar resistência, incompreensão ou até perseguição. Isso ocorre porque o exemplo do bem, muitas vezes, confronta consciências ainda adormecidas.

Sofrer perseguição por causa da justiça não significa buscar o sofrimento ou assumir uma postura de confronto, mas manter-se firme no bem, mesmo diante das dificuldades. O discípulo do Cristo aprende a não revidar o mal, a não se desviar de seus valores e a não negociar princípios por conveniência. Ele compreende que essas provas são oportunidades de fortalecimento espiritual, confirmando a autenticidade de sua escolha interior.

Ao final, Jesus retorna à promessa inicial: “deles é o Reino dos Céus”. Isso indica que o ciclo se fecha, mas em um novo patamar de consciência. O Reino não é um lugar distante, mas um estado de harmonia interior conquistado por aqueles que perseveram no amor, mesmo quando isso custa renúncia e esforço. É a confirmação de que todo o caminho percorrido nas Bem-aventuranças conduz à verdadeira liberdade espiritual.

Conclusão

Em qualquer dificuldade da vida, podemos retornar à primeira bem-aventurança e refazer o caminho:

  1. Humildade: reconhecer nossa pequenez.
  2. Mansidão: lamentar nossas imperfeições.
  3. Resignação: aceitar nossas limitações.
  4. Retidão moral: restaurar as pendências, pedindo perdão.
  5. Perdão: agir com compaixão e conceder o perdão.
  6. Intenção no bem: purificar o coração.
  7. Pacificação: promover a paz, ativamente.
  8. Perseguidos pela justiça: servir e ser fiel a Deus.

Se conseguirmos viver esse roteiro, alcançaremos a conexão com o divino e compreenderemos a razão pela qual estamos aqui: amar. E amando, seremos verdadeiramente felizes.

Acompanhe a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:

** Imagem em destaque via Gemini.

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