A relação entre o ser humano e os animais sempre despertou questionamentos profundos. Eles possuem alma? Pensam? Sofrem? Evoluem? Reencarnam?
Em palestra realizada pela trabalhadora Sandra Lemos na Associação Espírita Fé e Caridade, são respondidas de forma direta, algumas perguntas centrais sobre os animais à luz do Espiritismo.
A Doutrina Espírita responde a essas perguntas com base nas obras básicas e nos ensinamentos complementares trazidos por Emmanuel e André Luiz. Para o conteúdo a seguir e para a palestra mencionada foram usadas as seguintes referências:
– O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
– A Gênese – Allan Kardec
– No Mundo Maior – Chico Xavier por André Luiz
– Mecanismos da Mediunidade – Chico Xavier por André Luiz
– Testemunhos de Chico Xavier – Suely Caldas Schubert
– Os animais têm alma? Ernesto Bozzano
– A alma dos animais – Jean Prieur
– A alma dos animais – Irvênia Prada
– Animais, Na escola evolutiva – segundo as obras de André Luiz – Irvênia Prada
– A Questão Espiritual dos Animais – Irvênia Prada
Animais e espiritualidade
O estudo parte de questões recorrentes:
- Os animais evoluem?
- Os animais têm alma?
- Os animais sofrem?
- Os animais têm inteligência?
- Os animais reencarnam?
- Os animais pensam?
Antes de apresentar a visão espírita, é importante lembrar que nem sempre os animais foram vistos como são hoje.
A visão mecanicista de René Descartes
René Descartes – Filósofo, físico e matemático francês, argumentava que os animais eram:
- Máquinas automatizadas
- Insensíveis
- Movidas apenas por instinto
- Desconsiderar uivos, gemidos e lamentos
Essa visão influenciou por muito tempo nosso pensamento. A Doutrina Espírita, porém, apresenta entendimento diferente.
Livre-arbítrio e liberdade de ação
O primeiro ponto analisado é a liberdade dos animais.
L.E (Livro dos Espíritos). 595 – Gozam de livre-arbítrio os animais, para a prática dos seus atos?
“Os animais não são simples máquinas, como supondes. Contudo, a liberdade de ação, de que desfrutam, é limitada pelas suas necessidades e não se pode comparar à do homem. Sendo muitíssimo inferiores a este, não têm os mesmos deveres que ele. A liberdade, possuem-na restrita aos atos da vida material.”
Essa resposta trazida pelos espíritos benfeitores, nos convida a compreender que, embora os animais não disponham do livre-arbítrio no sentido moral, como o ser humano, não são seres destituídos de princípio inteligente ou reduzidos a simples automatismos. Sua liberdade é proporcional ao estágio evolutivo em que se encontram, limitada às necessidades da vida material, mas inserida na mesma Lei de Progresso que rege toda a Criação.
Assim, reconhecendo essa condição, somos chamados não apenas ao entendimento doutrinário, mas à responsabilidade moral: respeitar, proteger e amparar os animais, conscientes de que também participam da obra divina e seguem, sob a tutela das Leis de Deus, sua própria jornada evolutiva.
Animais têm alma? São espíritos?
Essa pergunta nos conduz diretamente a outra: Isso significa que os animais possuem um princípio inteligente independente da matéria?
L.E. 597 – Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?
“Há e que sobrevive ao corpo.”
Portanto, segundo os Espíritos, os animais não são apenas matéria organizada. Há neles um princípio que não se reduz ao corpo físico e que sobrevive após a morte.
Outro ponto que nos ajuda a entender sobre o assunto, é a Trindade Universal: Deus, espírito e matéria. Essa síntese indica os três elementos fundamentais do Universo segundo O Livro dos Espíritos:
- Deus é a causa primária.
- O princípio inteligente (espírito com “e” minúsculo) dá origem aos Espíritos.
- O princípio material dá origem aos corpos.
Essa estrutura é essencial para compreender a posição dos animais na Criação.
Espírito e espírito: qual a diferença?
Para compreender a natureza dos animais, precisamos entender a diferença entre Espírito e espírito.
L.E. 23 – Que é o espírito?
“O princípio inteligente do Universo.” 
Já em resposta à pergunta 79 do Livro dos Espíritos, os Espíritos nos trazem que: “Os Espíritos são a individualização do princípio inteligente (espírito) e os corpos são a individualização do princípio material.”
Com base nisso, podemos compreender:
- Espírito (com E maiúsculo): refere-se ao ser individualizado, ao ser inteligente da criação.
- espírito (como princípio): refere-se ao princípio inteligente universal, elemento constitutivo da Trindade Universal.
O princípio inteligente nos animais
A Gênese Cap. III, 21 esclarece:
“A verdadeira vida, tanto animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo modo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo.”
Se a verdadeira vida do homem e do animal está no princípio inteligente, então ambos participam desse mesmo princípio. Isso significa que os animais possuem, sim, o princípio inteligente — o espírito com letra minúscula.
Além disso:
L.E. 24 – O espírito é sinônimo de inteligência?
“A inteligência é um atributo essencial do espírito. Uma e outra, porém, se confundem num princípio comum, de sorte que, para vós, são a mesma coisa.”
Animais são seres inteligentes?
Quando afirmamos que os animais fazem parte do princípio inteligente, estamos reconhecendo que eles possuem inteligência.
A Gênese, no capítulo 3, item 12, apresenta a seguinte reflexão:
“A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma.”
Se os animais são dotados apenas de instinto, não tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos, o que não estaria de acordo com a justiça, nem com a bondade de Deus.
Os animais têm consciência?
A consciência dos outro seres da criação é abordada na obra de André Luiz, pelo espírito de Calderaro, quando afirma:
No Mundo Maior – Cap. 3
“A crisálida de consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aí se acha em processo liberatório…”
Essa imagem é profundamente significativa. A comparação com a crisálida, que indica algo que está em formação, em desenvolvimento, não ainda plenamente desabrochado, mas já existente em estado latente.
Ao afirmar que até no cristal há uma “crisálida de consciência”, André Luiz amplia a compreensão da vida como um processo contínuo. A consciência não surge pronta no ser humano; ela começa em estágios rudimentares, como no reino mineral, e vai se desenvolvendo ao longo da escala evolutiva.
Se no mineral existe essa “crisálida de consciência”, em processo inicial, nos animais esse princípio já se encontra em fase um pouco mais avançada. Não se trata ainda da consciência reflexiva, moral e responsável do homem, mas de uma consciência proporcional ao grau evolutivo em que o ser se encontra.
Assim, à luz deste ensinamento:
- A consciência não é privilégio exclusivo do homem.
- Ela existe em diferentes graus.
- Nos animais, manifesta-se de forma compatível com sua condição evolutiva.
- É um processo progressivo, não um salto brusco.
A expressão “processo liberatório” indica que a consciência está em constante libertação, expansão e aprimoramento, acompanhando nosso desenvolvimento.
Portanto, quando perguntamos se os animais têm consciência, a resposta, à luz de André Luiz, é que eles participam desse processo evolutivo da consciência, mas em grau diferente do humano.
Animais são seres pensantes?
O pensamento animal é analisado na obra Mecanismos da Mediunidade, Cap. 4 – Pensamento das criaturas.
O pensamento ou fluxo energético do campo espiritual são definidos e graduados nos mais diversos tipos de ondas:
- Legiões angélicas: raios super-ultra-curtos
- Mente humana: oscilações curtas, médias e longas
- Animais: ondas fragmentárias
O termo “ondas fragmentárias” indica que o pensamento animal não é contínuo e reflexivo como no homem e se manifesta de forma descontínua, ligada às necessidades imediatas da vida material.
Ou seja, o animal pensa, mas seu pensamento ainda não possui a organização lógica, moral e intelectual que caracteriza a mente humana.
Animais reencarnam e evoluem?
A lei do progresso também se aplica aos animais.
L.E. 599 – À alma dos animais é dado escolher a espécie de animal em que encarne?
“Não, pois que lhe falta livre-arbítrio.”
L.E. 601 – Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
“Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes.”
Essa submissão não deve ser entendida como licença para abuso, exploração cruel ou indiferença. Ao contrário, ela implica responsabilidade. Se o homem ocupa posição mais avançada na escala evolutiva, isso significa que possui maior consciência, maior capacidade moral e responsabilidade perante a Lei Divina.
Dessa forma, nossa relação com eles deve refletir respeito, cuidado e proteção. A superioridade evolutiva nunca é justificativa para desprezo. É compromisso de amparo.
Reflexões finais
Animais têm alma.
Animais são espíritos.
Animais pensam.
Animais têm inteligência.
Animais reencarnam.
Animais evoluem.
Encerrando o estudo, Emmanuel amplia a compreensão moral da questão:
“Todos somos irmãos. De milênios remotos, viemos todos nós, em pesados avatares. Da noite, ainda insondável para nós, dos grandes princípios, emergimos para o concerto da vida. (…) sabemos que todos os seres inferiores e superiores participam do patrimônio da luz universal.
É certo que o Espírito jamais retrograda. (…)
Recebei como obrigação sagrada o dever de amparar os animais na escala progressiva de suas posições variadas no planeta. Estendei até eles a vossa concepção de solidariedade e o vosso coração compreenderá, mais profundamente, os grandes segredos da evolução, entendendo os maravilhosos e doces mistérios da vida.”
— Emmanuel – Obra: Emmanuel – Capítulo 17.
Assista à palestra completa que inspirou essa publicação:
*Imagem em destaque via DALL.E do ChatGPT.