Quantos de nós já ouvimos essa frase — ‘tua fé te salvou’ — e, ainda assim, ficamos em dúvida sobre o que ela realmente significa?
Fé em quê?
Fé em quem?
Fé que salva de quê?
Em palestra na Associação Espírita Fé e Caridade, o expositor Paulo Allebrandt traz o tema que nos convida ao estudo: uma passagem muito conhecida, mas que guarda camadas profundas de entendimento, encontrada em Marcos, capítulo 5: a cura da mulher que sangrava.
Vamos começar relembrando essa passagem. Vamos ouvir essa história tentando senti-la mais do que apenas entendê-la:
Então, uma mulher, que havia doze anos sofria de uma hemorragia; — que sofrera muito nas mãos dos médicos e que, tendo gasto todos os seus haveres, nenhum alívio conseguira — como ouvisse falar de Jesus, veio com a multidão atrás dele e lhe tocou as vestes, porquanto, dizia: Se eu conseguir ao menos lhe tocar nas vestes, ficarei curada. — No mesmo instante o fluxo sangüíneo lhe cessou e ela sentiu em seu corpo que estava curada daquela enfermidade.
Logo, Jesus, conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra, se voltou no meio da multidão e disse: Quem me tocou as vestes? — Seus discípulos lhe disseram: Vês que a multidão te aperta de todos os lados e perguntas quem te tocou? — Ele olhava em torno de si à procura daquela que o tocara.
A mulher, que sabia o que se passara em si, tomada de medo e pavor, veio lançar-se-lhe aos pés e lhe declarou toda a verdade. — Disse-lhe Jesus: Minha filha, tua fé te salvou; vai em paz e fica curada da tua enfermidade.
— Marcos, 5:25 a 34.
O texto nos traz muita coisa pra refletir, então vou pedir licença para abordá-lo aos poucos, visitando os fatos e o contexto para podermos comentar o que a Doutrina Espírita nos diz sobre eles.
O peso de doze anos
O texto nos diz que ela sofria de uma hemorragia há doze anos. Para entendermos o tamanho da dor dessa mulher, precisamos olhar para o contexto da época. Segundo o Levítico (Cap. 15), o fluxo de sangue tornava a mulher “impura”.
Quando lemos isso hoje, pode parecer apenas um detalhe cultural distante. Mas, para aquela mulher, era uma ferida aberta todos os dias.
Isso não era apenas um diagnóstico médico; era uma sentença de isolamento. Se ela tocasse em alguém, essa pessoa ficava impura. Se sentasse em uma cadeira, a cadeira ficava impura. Imaginem: doze anos sem um abraço. Doze anos sem poder entrar no Templo para orar. Ela vivia uma “morte social” e religiosa.
Isso pode parecer algo muito pesado. Talvez até nos leve a pensar o que pode ter causado tal situação. Não sabemos as causas espirituais daquela prova, e nem precisamos saber. O que importa é perceber que nenhuma dor é inútil quando conduz ao despertar. Do ponto de vista espírita, não falamos em castigo divino, mas em experiências educativas para a alma, afinal, quantas vezes, só depois da dor é que mudamos de rota?
Marcos nos traz, ainda, um detalhe que ressoa muito com as nossas buscas atuais: ela “sofrera muito nas mãos dos médicos e gastara tudo o que possuía”. Ela buscou a cura no mundo exterior, na matéria, nos recursos de outrem. E o resultado? “Nenhum alívio conseguira, antes ia de mal a pior”.
Muitas vezes, nós somos essa mulher. Carregamos “hemorragias” emocionais — mágoas que não estancam, culpas que nos drenam a energia — e tentamos estancá-las com paliativos: compras, distrações, vícios ou esperando que alguém resolva o problema por nós. Gastamos nossa energia vital e continuamos “de mal a pior” porque a cura definitiva não está fora, mas na conexão que fazemos com o Alto.
O Toque da Vontade
Se buscarmos o contexto em que essa passagem se insere, o Evangelho nos conta que Jesus estava em uma situação de urgência. Ele havia sido chamado por Jairo, um chefe da sinagoga, para socorrer sua filha que estava à morte. Enquanto ele caminhava, uma grande multidão o apertava por todos os lados.
No meio disso, surge a mulher. Vale lembrar que ela vivia um isolamento social terrível. Imaginem tudo o que ela teve que superar no seu íntimo para encarar uma multidão para se aproximar de Jesus. Se ela fosse reconhecida como uma impura, sabe-se lá o que poderia lhe acontecer. Ela poderia ser hostilizada, expulsa, humilhada.
Ela, sabendo que não poderia se aproximar abertamente por ser considerada impura, dizia consigo mesma: “Se eu apenas tocar em suas vestes, ficarei curada”. Ela não gritou, não fez um pedido formal. Ela agiu.
Vejam o que acontece quando ela toca a fresta da túnica de Jesus: o fluxo estanca imediatamente. Jesus para tudo e pergunta: “Quem me tocou nas vestes?”.
Os discípulos, confusos, respondem: “Vês que a multidão te aperta de todos os lados e perguntas: Quem me tocou?”.
Aqui está um ponto chave para a nossa reflexão. Havia centenas de pessoas esbarrando em Jesus, comprimindo-o, talvez até por curiosidade ou para dizer que estiveram perto dele. Mas apenas uma pessoa o tocou.
Qual a diferença entre esbarrar e tocar? É a vontade.
Vamos até reforçar isso… A diferença entre esbarrar e tocar, é a vontade!
No capítulo XV de A Gênese, Allan Kardec analisa sob a ótica espírita vários dos milagres de Jesus. Nesse texto, aprendemos que este não foi um fenômeno sobrenatural, mas um processo de transmissão fluídica. Ele explica que o fluido é a matéria-prima do corpo e do perispírito. Como Jesus era um Espírito Puro, com pleno domínio sobre suas energias, a ‘virtude’ que dele saía era uma transfusão de fluidos puríssimos que agiam molécula a molécula no corpo da doente. Foi a ciência divina agindo sobre a matéria orgânica através de um interruptor fundamental: a fé daquela mulher, que ligou sua necessidade ao manancial de luz que era o Mestre.
Para explicar esse trecho, Kardec, em A Gênese, esclarece que o movimento fluídico de cura pode funcionar como uma bomba hidráulica que empurra o fluxo, que seria quando o médium dirige a sua vontade sobre o doente, mas também pode ser uma bomba aspirante, que puxa o fluxo, que é quando o desejo ardente, a confiança e a fé do doente atraem o fluido necessário.
É importante notar que Jesus não realizou um ato deliberado de cura naquele instante; ele não impôs as mãos nem se concentrou para isso. Ele simplesmente caminhava, irradiando sua luz natural.
Foi o desejo ardente daquela mulher que ‘puxou’ a energia necessária. Enquanto a multidão o apertava fisicamente, ela o alcançava vibratoriamente.
Fé e Salvação
Voltando ao texto… estávamos falando do momento em que Jesus pergunta “Quem me tocou?”
Quando a mulher percebe que não pode se esconder, ela se apresenta tremendo, prostra-se diante dele e conta toda a verdade. Jesus, então, diz uma frase cheia de significado: “Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal”.
Vale aqui uma pergunta que sempre fazemos: será que Jesus a “salvou” de forma privilegiada?
Sabemos, pelo que estudamos em O Livro dos Espíritos, que Deus não altera nem suspende Suas leis por favoritismo. Jesus nos ensina que ele é o nosso Modelo e Guia, não um salvador que carrega a cruz em nosso lugar enquanto ficamos ociosos. Ele diz: “A tua fé te salvou”.
A fé, no sentido espírita, é a fé raciocinada. É a confiança que nos dá forças para sair da “caverna” do desespero. Aquela mulher não ficou sentada esperando que Jesus entrasse em sua casa; ela rompeu barreiras, enfrentou o preconceito de ser impura e foi ao encontro da luz.
E quais seriam as nossas barreiras hoje? Às vezes, a nossa ‘multidão’ é o medo do julgamento alheio, é o desânimo que nos diz que ‘não temos mais jeito’, ou a inércia de quem se acostumou com a própria dor.
Às vezes sabemos exatamente o que precisamos mudar, mas adiamos por anos, como se o tempo resolvesse sozinho aquilo que só a decisão resolve.
Romper a multidão significa silenciar essas vozes de pessimismo para conseguir, finalmente, estender a mão em direção ao que nos faz bem.
A salvação, aqui, não é apenas o fim da doença física. É a libertação das más inclinações, é o despertar para uma vida de paz e consciência.
O desfecho é belíssimo: ela se apresenta “tomada de medo e pavor” e declara toda a verdade. E Jesus, com uma ternura imensa, a chama de “filha”. Ele a reintegra à família humana.
O que sangra em nós?
Ao olharmos para essa história, percebemos que a verdade — a compreensão de quem somos e do que precisamos — muitas vezes nos apavora antes de nos libertar. Mas nós também sofremos quando não acreditamos na nossa capacidade de cura e na bondade divina.
Jesus nos mostrou que o que ele faz, nós também podemos fazer se tivermos fé.
Agora mesmo, estamos todos aqui no Centro Espírita e, como sempre comentamos, estamos sendo amparados e tratados pela espiritualidade amiga desde o momento em que aqui chegamos. Estamos aqui esperando pelo momento do passe que fazemos ao final. Mas fica a pergunta:
Será que estamos apenas “esbarrando” em Jesus ao vir aqui por hábito?
Ou estamos tocando Nele por meio da prece sincera e da vontade de ser melhor, atraindo a renovação para a nossa própria vida?
A cura da mulher começou no instante em que ela disse: “Se eu apenas tocar…”. A cura começa no nosso pensamento. O passe que tomaremos logo mais é o oferecimento do “fluido reparador”, mas somos nós que precisamos ser a “bomba aspirante”.
Kardec alerta que, se estivermos em um estado de revolta, descrença ou extrema distração, criamos uma ‘força de inércia‘ que paralisa, ou, pelo menos, dificulta muito mais, a ação do fluido. É como se fechássemos a porta por dentro. A espiritualidade nunca deixa de agir; somos nós que, às vezes, não aproveitamos plenamente.
Por outro lado, quando somos a ‘bomba aspirante’, nós não apenas recebemos o fluido, nós o atraímos ativamente. O nosso desejo de melhora é o que dá ‘força de penetração’ ao remédio que a espiritualidade nos oferece.
Que possamos levar para casa não apenas a admiração por esse fato histórico, mas a certeza científica e consoladora de que a nossa vontade, aliada ao amparo divino, é capaz de estancar qualquer sangramento da alma.
Todos nós temos algo que sangra — visível ou invisível. A pergunta não é se seremos amparados, mas se teremos coragem de tocar com confiança.
Que Jesus, nosso irmão mais velho e guia, nos ilumine a caminhada.
Acompanhe agora a íntegra da palestra que inspirou esta publicação:
* Colaborou para esta publicação: Paulo Allebrandt.
** Imagem em destaque: Afresco na Catacumba de Marcelino e Pedro, em Roma.