A desgraça real

Toda a gente fala da desgraça, toda a gente já a sentiu e julga conhecer-lhe o caráter múltiplo. Porém, quase toda a gente se engana.

1. O ponto de partida: o que chamamos de desgraça?

A reflexão central está no capítulo V de O Evangelho segundo o Espiritismo, Bem-aventurados os aflitos, item 24, chamado A desgraça real.

Do ponto de vista humano, tendemos a considerar desgraças tudo aquilo que nos causa sofrimento imediato: perdas, privações, enfermidades, dificuldades materiais e acontecimentos que contrariam nossos desejos.

O problema é que esse julgamento é feito a partir de uma perspectiva limitada à existência presente.

Sabemos que perdas, doenças e privações provocam aflições. A mudança está no critério utilizado para avaliar o significado dessa dor.

Aflição e “desgraça real” não são necessariamente a mesma coisa.


2. O ponto de vista

A vida não compreende apenas o que acontece durante a vida corporal. Ela continua, pois somos espíritos imortais. Essa visão desloca o nosso modo habitual de avaliar felicidade e infelicidade.

A perspectiva espiritual considera também as consequências das escolhas.

Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir.
— Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 24.

Por conseguinte, algo extremamente doloroso na experiência presente pode não ser considerado uma desgraça definitiva.

Da mesma maneira, uma existência confortável, cheia de prazeres e aparentemente bem-sucedida não constitui necessariamente felicidade verdadeira.


3. Não é desvalorizar a dor

Essa reflexão não significa que: “O desencarne de um ente querido não dói” ou que “Uma doença grave não importa.”

Não é sobre negar a dor. Mas relativizar o nosso julgamento sobre ela. A aflição presente não oferece, sozinha, elementos suficientes para avaliarmos toda a trajetória de um Espírito.

Tudo o que se chama infelicidade, segundo o ponto de vista humano, cessa com a vida corporal e encontra a sua compensação na vida futura.

A vida corporal deixa de ser a totalidade da história e passa a ser parte dela.


4. O problema das aparências

Os valores do mundo estão, assim, invertidos?

De maneira geral, sim, pois a sociedade frequentemente associa:

  • ter → felicidade
    perder → infelicidade
  • saúde → felicidade
    doença → desgraça
  • prazer → felicidade
    privação → infelicidade

Mas o espiritismo nos lembra do destino espiritual e moral do ser humano.

Essa inversão decorre da nossa ignorância ou esquecimento quanto à verdadeira finalidade da vinda do homem à Terra. Portanto, o acontecimento exterior deixa de ser o único critério.


5. Afinal, o que é infelicidade?

A infelicidade é a alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, que comprimem a ação do pensamento, que atordoam o homem com relação ao seu futuro. A infelicidade é o ópio do esquecimento que ardentemente procurais conseguir.
— Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, item 24.

A infelicidade é o esquecimento da nossa destinação transcendente pelo prazer de fruir gozos perniciosos.

Ela não é definida simplesmente pela intensidade da dor que alguém experimenta. Ela está relacionada àquilo que compromete moralmente o Espírito e produz consequências futuras funestas.

Ou seja, infelicidade real é permanecer moralmente estacionado diante das provas.


6. Alegrias terrenas

E as alegrias da vida? Precisamos renunciar a elas? Não.

O espiritismo não valoriza o sofrimento ou condena a felicidade material.

Podemos usufruir das alegrias sadias do mundo, desde que não nos percamos nelas.

O problema não está no conforto, dinheiro ou realizações materiais. Está na transformação desses instrumentos em finalidade absoluta da existência.

A vida material é meio, não finalidade última.

Portanto, devemos encarar a satisfação material, com moderação, atento às necessidades espirituais.


7. Diante do próximo

O texto “Diante deles”, de Joanna de Ângelis, amplia essa reflexão ao olhar para pessoas que enfrentam condições extremamente difíceis.

A autora espiritual apresenta situações de enfermidade, limitações físicas e outras experiências dolorosas dentro de uma perspectiva de continuidade espiritual e de causa e efeito.

O texto chama atenção para algo particularmente importante: diante de quem sofre, nossa atitude não deve ser de julgamento.

Ao contrário. O convite é para ajudar enquanto podemos.

Qual a atitude de Jesus diante dos enfermos e necessitados? acolhimento, socorro, esperança.

Reconhecer que uma aflição possa possuir significado espiritual não nos autoriza a minimizar o sofrimento de quem a vive.

Desse modo, duas ideias coexistem: A prova que uma pessoa enfrenta possui significado para sua evolução; e Quem está diante daquele que sofre tem responsabilidade de acolher e ajudar.


8. Consciência e responsabilidade

Emmanuel nos lembra da responsabilidade que temos diante da marca deixada ao nosso entorno.

Reflete na mensagem que expedes, diariamente, na direção da comunidade.
As tuas ideias e comentários, atos e diretrizes voam de ti, ao encontro do próximo, à feição das sementes que são transportadas para longe das árvores que as produzem.
Cultivemos amor e justiça, compreensão e bondade, no campo do espírito.
— Estude e Viva, cap. 2.1, Tua mensagem.

A mensagem chama atenção para aquilo que nossas atitudes produzem e para a necessidade de observarmos nossas próprias escolhas.

Guarda a certeza de que tudo quanto sintas e penses, fales e realizes é substância real de tua mensagem às criaturas e é claramente pelo que fazes às criaturas que a lei de causa e efeito, na Terra ou noutros mundos, te responde, em zelando por ti.
— Estude e Viva, cap. 2.1, Tua mensagem.

Colheremos sempre o que plantarmos. Se, na ilusão da alegria fútil, plantarmos a semente da desgraça, é ela que colheremos. Por isso, a importância de fazer o bem.


9. Como lidamos?

Não basta perguntar: “O que aconteceu comigo?

Também precisamos perguntar: O que estou fazendo diante do que aconteceu?

Estou lidando com a situação aflitiva com resignação (aceitação ativa) ou com revolta?

Dentro da perspectiva evolutiva, experiências difíceis podem assumir função educativa.

Não é a dor, por si só, que aperfeiçoa. É o que fazemos com ela.

Sendo assim, uma aflição só se torna desgraça real se não sabemos tirar proveito desse convite-desafio para uma transformação íntima.


10. Oração como base forte

Ao passo que temos provas e expiações no caminho evolutivo atual, teremos sempre a ajuda necessária, indispensável para seguir em frente.

Já nos diz o Evangelho: “Buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; ajuda-te, e o Céu te ajudará”. Que tal começarmos, diariamente, buscando essa sintonia com o plano maior?

245. Se é justo esperarmos por determinadas dores no decurso do nosso roteiro de provações na Terra, devemos sempre cultivar a prece?

A lei das provas é uma das maiores instituições universais para a distribuição dos benefícios divinos.

Precisais compreender isso, aceitando todas as dores com nobreza de sentimento.

A prece não poderá afastar os dissabores e as lições proveitosas da amargura, constantes do mapa de serviços que cada Espírito deve prestar na sua tarefa terrena, mas deve ser cultivada no íntimo, como a luz que se acende para o caminho tenebroso, ou mantida no coração como o alimento indispensável que se prepara de modo a satisfazer à necessidade própria, na jornada longa e difícil, porquanto, a oração sincera estabelece a vigilância e constitui o maior fator de resistência moral, no centro das provações mais escabrosas e mais rudes.
O Consolador. questão 245.


Conclusão

A perspectiva espírita não nega a realidade da dor humana, mas amplia o horizonte pelo qual ela é compreendida. Aquilo que parece uma grande desgraça quando observado apenas pela vida presente pode assumir outro significado quando considerado à luz da continuidade da existência e de suas consequências para o Espírito.

Da mesma forma, aquilo que o mundo chama de felicidade pode esconder escolhas que comprometem a consciência e o futuro espiritual. Por isso, o critério deixa de ser apenas “o que aconteceu comigo?” e passa também a considerar “o que minhas escolhas e atitudes produzem em mim diante do que aconteceu?”.

A depender dessa escolha, uma aflição pode se tornar em graça ou desgraça para o Espírito. Nas aflições da vida, lembremos que estamos sempre sendo amparados para lidar com coragem e resignação.

Acompanhe agora a seguinte palestra sobre o tema:

Referências:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 89. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1984. Cap. V, item 24, p. 123–124.

FRANCO, Divaldo Pereira. “Diante deles”. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. In: Lampadário Espírita. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978, p. 81–82.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 11. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1985. Questões 239–245; em especial, “Evolução/Dor”, questão 240, p. 144–145.

XAVIER, Francisco Cândido. “Tua mensagem”. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. In: Estude e Viva. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982, p. 28–29.

*Contribuiu para esse artigo: Carla Ribeiro.
** Imagem via DALL.E do ChatGPT.

Leia também o artigo A infelicidade real, que explica quem era o Espírito Delphine de Girardin, que ditou em Paris, 1861, o item 24 (A desgraça real) do cap. V, presente no Evangelho segundo o Espiritismo.
Há também outro artigo intitulado A desgraça real, leia para mais reflexões.

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